Políbio Adolfo Braga. Já na primeira frase o entrevistado sorriu: “Adolfo por causa de meu avô materno, que era Adolfo Radtke”. Políbio era o avô paterno. Ele passou o nome ao filho mais velho, com a seguinte explicação: “Pra castigar, por que só eu?”. Outro sorriso. Políbio se apresenta como um brigão, mas riu bastante na conversa. Quando nós chegamos no escritório dele, estava organizando a mesa cheia de jornais, onde se destacavam dois livros de Bob Woodward: “Plano de Ataque” e “Bush em Guerra”. Queria entender melhor o conflito. “Mas quem me deu a melhor visão mesmo foi um livro chamado O Vulto das Torres, de Lawrence Wright, colunista do New Yorker, que ganhou o Prêmio Pulitzer 2007”, assegura. Ler autores diferentes sobre o mesmo tema é o método que desenvolveu para formar opinião: “Em tudo eu procuro ir nas origens, eu não consigo escrever uma linha se primeiro eu não for investigar a origem daquilo que está ali. Às vezes, eu perco a chance de dar um furo porque eu quero compreender a gênese daquilo ali”. Sobre o conflito no Iraque, concorda que existem atrocidades cometidas pelos Estados Unidos, que não se pode invadir outro país, mas está convencido de que o fundamento da guerra é religioso “em relação a uma facção dissidente do Islã, comandada pelo Osama Bin Laden. É uma guerra religiosa declarada por eles”. Casado com Raquel, é pai também de Frederico, administrador de empresas, e de Pedro Mariano, analista de informática. Começou o ofício de jornalista em Jaraguá do Sul (SC), trabalhou nas principais empresas de comunicação do RS, em todas mais de uma vez, nelas fez amigos e inimigos. Hoje, integra o time de colunistas do jornal O SUL e tem um site (www.polibiobraga.com.br) com uma newsletter de 90 mil assinantes. Não pensem que ele sossegou. A briga mais recente e retumbante em que se meteu, isso se não apareceu outra depois de fechada esta edição, foi nada mais nada menos que com Portugal. Tudo porque, insatisfeito com o tratamento dos lusitanos, decidiu publicar no dia 5 de dezembro em seu site um artigo de um jornal português, O Público, que desencava Portugal. Sem citar a fonte. Em protesto, criaram comunidades no Orkut contra ele, mandaram-lhe e-mails, outros sites o atacaram e até o consulado quis saber o que havia acontecido. Mas quando vieram ameaças físicas, ele decidiu parar de tratar do assunto. Afinal, aos 66 anos, “aprendi algumas coisas”, diz. Nascido em Jaraguá do Sul, Santa Catarina, veio para o Rio Grande do Sul aos 20 anos. Se define: “Sou um catarucho”.
Políbio é “homem de muitas vidas”. Você teve muitas vidas? Não diria que sou um homem de muitas vidas, mas já vivi muitas vezes. Vivo intensamente. Até demais.
Qual foi a primeira vez que viveu intensamente? Foi praticamente do zero aos 17 anos, em Jaraguá do Sul. Estou aqui há mais de 40 anos e se alguém me perguntar se me considero catarinense, eu digo que não. Ma se me perguntarem se me considero gaúcho também digo que não.
Mas tem um jeito brigão de gaúcho. Tenho. Sempre fui brigão. Eu era um garoto muito pobre numa cidade que tinha cinco mil habitantes, não tinha nenhuma rua calçada. Era tudo meio colônia. Minha mãe era filha de colonos alemães. Eu morava perto de um campinho de futebol, praticamente brigava a socos todos os dias com alguém ali. Eu era o dono da bola, pegava a bola e ia embora e todo mundo corria atrás de mim.
Mas pelo menos era craque pra fazer tudo isso? Eu era goleiro. Péssimo jogador de futebol. Tomava muito frango. Eu brigava muito, batia, achava que era imbatível. Um dia um guri me desafiou para uma briga e eu disse “não quero bater em ti porque vou te quebrar todo”. Mas ele quis e eu levei uma baita surra. Aí aprendi que podia apanhar também. A partir dali passei a ter mais cautela. Continuei brigando, mas com mais cautela.
Trabalhou desde que idade? Com 14 anos consegui meu emprego numa fábrica de flores.
Isso lhe tirou pedaço? Por que hoje não se pode trabalhar com menos de 16 anos. Não, pelo contrário. Para mim foi muito positivo. Aliás, eu fui para a rua da empresa porque bati na filha do dono. (risos)
Em vez de cantar a filha do dono você bateu nela. Com 14 anos não cantava ninguém. A guria foi me provocar onde eu estava trabalhando e eu dei nela. Mas eu fui trabalhar só para ganhar dinheiro para poder comprar uma bola de futebol. Meu pai não podia comprar e disse “vai trabalhar para comprar”. Depois de me formar no ginásio eu fui para Joinville cursar o que hoje equivale ao segundo ciclo. Fui estudar e trabalhar. No início, morei com um irmão meu, depois fui para uma pensão. Eu me lembro que quando cheguei, peguei emprestada a bicicleta dele e procurei 16 empresas, pedindo emprego, em dois dias. Eu era bom de bater à máquina, datilografia, que aprendi com as freiras em Jaraguá. E meu primeiro emprego foi como faturista. Na malharia Arp.
Ficou ali até quando? Fiquei três anos. Em Jaraguá do Sul, fui o orador da minha turma. Eu fiz um discurso, no ginásio, atacando os padres do colégio onde eu tinha me formado. E os padres me expulsaram do colégio, depois de formado, mas me deram o diploma.
Foi aí que começou a sua fama de subversivo? Começou no ano seguinte. Quando eu fui para Joinvile e ganhei a eleição para presidente da União Joinvilense de Estudantes Secundaristas, em 1961.
Época da Legalidade. Aí, ocorreu uma eleição para governador. Era o Celso Ramos contra o Irineu Bornhausen. PSD contra UDN. E o pessoal do PSD, a quem eu era ligado por causa do meu pai, me procurou para fazer uma campanha pró um ginásio público em Joinvile, que tinha uma lei que mandou criar e os governadores não criavam. Isso ajudaria o Celso Ramos. Eles me usaram, e eu também usei. Então nós fizemos uma campanha muito forte e o Celso Ramos ganhou. Quando ganhou, esse mesmo pessoal me chamou e disse “ó, agora você fica quieto porque nós ganhamos a eleição”. Eu digo “não, agora eu quero o colégio”. Eles disseram: “Mas o que é isso? Eu vou falar com o teu pai”. “Pode falar até com a minha mãe, eu não vou terminar com isso”. Aí, o colégio onde eu estava, em Joinvile, também me expulsou. Porque eu estava fazendo campanha por um colégio público que seria concorrente deles. Para me obrigar a sair da entidade. Eu não só não saí como me elegi vice-presidente e secretário-geral da União dos Estudantes de toda Santa Catarina. E só saí de Joinvile no dia em que o governador foi lá colocar a pedra fundamental do colégio público. No ano seguinte, me elegi presidente da União Brasileira de Estudantes Secundaristas (UBES). Fui para o Rio de Janeiro. O presidente nacional da UNE, na época, era o Serra. A partir dali começou a minha segunda vida. A vida de líder estudantil, que durou até 64. No dia que deu o golpe militar, eu peguei um ônibus e vim para cá, para pegar em armas aqui como fizemos em 61.
Por que deu certo em 61 e não deu em 64? Tem n diferenças, e que são abismais entre uma situação e outra. Pra começar, o governo do Jânio era conservador, o governo do Jango, três anos depois, era de esquerda. A situação econômica tinha se desagregado terrivelmente. Mais do que isso, em 61 o Brizola era governador no Rio Grande do Sul, em 64, não era. Era deputado federal pela Guanabara. Pelo contrário, o governador aqui no RS era inimigo dele, o Ildo Meneghetti. O Brizola não tinha nem o governo na mão.
O que você foi fazer a partir de 64? Eu não pude voltar para Santa Catarina, porque iriam me prender, e fiquei escondido aqui dois anos, até que me prenderam.
Ficou escondido onde? Em diferentes lugares, pelo pessoal que aqui no Rio Grande do Sul era da chamada Ação Popular, era a esquerda católica, que logo depois foi se tornar extrema esquerda, trotskista. Tempos depois fui morar na casa da Juventude Universitária Católica, a JUC 3, que era na descida da Mostardeiro. A polícia estava me procurando no Brasil inteiro. Aí, me prenderam e me levaram para Curitiba. Fiquei lá meio ano preso.
Chegou a apanhar? Naquela, não. Nas outras eu apanhei. Mas nessa, em 66, ainda era uma fase romântica. O carcereiro discutia filosofia.
Você estava ligado à AP nessa época? Não tinha ligação. Eu era da chamada esquerda independente. A esquerda independente é de esquerda, mas não está com ninguém. Pode se aliar até com a direita. Com qualquer um. Às vezes eu era mais radical do que hoje seria a Luciana Genro, por exemplo. Às vezes, não era. Mas o meu aliado natural era, na época, o PCB, Partido Comunista Brasileiro. Eu não era comunista, mas sempre me aliava com eles. E nunca me aliei com a Ação Popular. Católico comigo não tinha passagem. De jeito nenhum. Aliás, não tem até hoje.
Hoje você se considera de direita? Dentro da categoria que falam aí, sou.
Era solteiro quando foi preso? Era. Eu conheci a Raquel antes das minhas prisões, na época em que eu era bem de esquerda e ela também. Ela é filha de um estivador comunista. Fiquei meio ano preso e quando saí fui procurá-la, para ver se ela ainda esta solta. Casei com ela em dois ou três meses. Depois que me casei, nunca mais fui preso.
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