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Zona escura

A comparação é uma forma de saber o seu tamanho, valor, significado, importância e mais um tanto de categorias que parecem fazer parte da nossa vida, mesmo nos casos em que se prefere fingir que elas não existem. Como é bem pouco provável que se consiga evitar a avalanche de rankings, infográficos, grafos, opiniões e comentários alheios, além de outras formas tácitas de mostrar quem é o mais isso e o mais aquilo, encare: comparar não é substantivo, mas é inevitável.

No mundo profissional, idem. Por exemplo, existe uma comparação clássica entre profissões que vários publicitários utilizam quando um cliente mostra as suas garras palpiteiras e arranha, quando não rasga de cabo a rabo, o orgulho dos mesmos. Quando vai ao médico, você não entra no consultório, senta diante dele e diz: “Doutor, estou com uma dor bem aqui e preciso tomar isso três vezes ao dia. Faz a receita e me manda a conta”.

Não. Você entra no consultório, senta, responde às perguntas pacientemente e, no final, ouve alguns murmúrios, paga e vai até a farmácia em busca de um tradutor para o que está rabiscado naquele pedaço de papel chamado receita.

Neste caso, a comparação é utilizada para mostrar que o cliente está errado quando se mete a dizer o que a agência deve fazer. Ele deveria ficar sentadinho, responder às perguntas, aplaudir a receita e pagar a conta. Bem, médico é médico, cliente é cliente e publicitário deve se comparar também com terapeuta, procurar entender a situação e achar uma saída para aparar os garrões do seu cliente. Ele costuma ser impaciente e gosta de pular para outro consultório que obedeça mais e cobre menos.

Mas há outras comparações possíveis, pelo menos, de se inventar. Uma mais atual seria com os engenheiros que revolucionaram o mundo sem fazer o menor barulho. Você consegue imaginar o cliente de um deles chegar e dizer que precisa de um aparelho que permita armazenar dados e se comunicar com outros aparelhos por todo o mundo e que ainda por cima caiba na palma da sua mão? Não. Eles inventaram tudo isso porque mergulharam em uma busca obsessiva e chegaram lá porque não precisavam da aprovação de nenhum cliente. Resta a você ficar, dia após dia, tentando entender tudo que eles inventam sem parar, correndo atrás para não se tornar obsoleto.

Por falar nisso, as comparações, assim como as pessoas e as coisas, também envelhecem. As que eram feitas com o mundo da arte ainda sobrevivem por aí, mas têm sido traídas com as novas ciências exatas. Entretanto, existe uma comparação que não deveria sair de cena. O ator em cima do palco. Submetido a um texto, a um diretor, com o público ali na frente pronto para enxergar todas as suas falhas, mesmo assim não existe pessoa mais apaixonada pelo que faz. O segredo estaria em algo que os grandes da área citam, com brilho nos olhos. É a tal da zona escura. Nesta dimensão oculta só o ator entra. E ali ele manda.

Agora faça a comparação. O publicitário recebe seu briefing. Há ali uma zona escura em que só ele pode entrar. Ele examina a questão, o relógio e, na maioria das vezes, não veste a roupa de mergulho e não salta para um desafio desconhecido. É preferível ficar com os holofotes dos dados, com a clareza luminosa da tela, com a placa de sinalização que já veio delineada do que pular para dentro de uma dimensão que pode ser como um buraco negro.

Não há registros de gente que foi lá e não voltou, mas, mesmo assim, a maioria prefere ficar do lado de cá e não arriscar. Podemos comparar essa atitude com a de quem está numa linha de montagem e não pode falhar em nenhum momento. É melhor não pensar muito porque isso pode provocar acidentes.


 
André Martins
Redator
doandremartins@gmail.com
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