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O caminhão de mudanças

Outro dia eu estava contando: em 50 anos de vida eu mudei de casa uma dúzia de vezes. Para mim foi suficiente e, a menos que ganhe na Mega-Sena, não pretendo fazer outras mudanças.

Em cada uma delas fui perdendo, ou tendo que deixar para traz, muitas coisas. Ou porque não cabiam ou porque não tinham nada a ver com a nova moradia, ou porque simplesmente se perderam na transição. Isso faz parte do jogo, é assim que a vida é.

Aquele armário, imenso e robusto, herança de família, teve que ficar. O sofá de quatro lugares não caberia no novo apartamento. Entre uma caixa e outra, perderam-se fotos importantes, livros autografados, discos raros. E muita bugiganga, que vamos juntando e colecionando ao longo de anos, precisam ser descartadas. Casa nova, vida nova.

Agora, no Festival de Publicidade de Gramado, fala-se e provoca-se: “Ou você muda, ou mudam você”. Um tema interessante, ainda mais em se tratando de uma indústria tão sensível a mudanças como a indústria da Comunicação. Mas, é um tema pela metade. Não nos basta saber que precisamos mudar, é tão ou mais necessário saber para onde mudarmos, o que podemos e o que não podemos levar no caminhão de mudanças.

Sem essa segunda metade do dilema, temos grandes chances de engordar as estatísticas dos profissionais e empresas que passaram a viver no limbo, que já saíram do velho mundo das premissas analógicas, mas ainda não souberam se colocar no novo mundo das verdades digitais. Nem no inferno, tampouco no céu.

Todos nós, que temos um pouquinho que seja de senso crítico da realidade, já percebemos que o universo das coisas humanas, suas relações, sua produção, sua mercancia, e tudo mais estão mudando. Todos nós, que trabalhamos com comunicação, já nos demos conta que o que nos servia até há poucos anos, já não nos serve e que tudo aponta para a necessidade de nos reposicionarmos. Tá, mas e daí? O problema todo está em “para onde” mudarmos, com “o que” mudarmos.

Temos um jornal impresso, o caminho é transformá-lo num site? Temos uma agência de propaganda, a saída e mudarmos para uma agência digital? Para oferecer quais serviços? Se todo mundo está indo para aquele lado, não seria o caso de fazer algo diferente? Mas, o que?

O rádio já não é mais o mesmo, as pessoas estão ouvindo pela internet, o negócio é desligar o cristal e se fixar apenas na web? O público possui mais smartphones do que tevês, seria o caso, então, de transformar a emissora em apenas uma produtora de conteúdo para internet?

Creio que essas são as perguntas que têm tirado o sono de empresários e profissionais da Comunicação.  Ok, a mudança é incontornável, imprescindível, mas para onde? Não nos resta alternativa, enquanto pensamos nisso, é bom ir pondo tudo nas caixas e aproveitando para praticar o desapego, afinal, mesmo sem saber para onde estamos indo, é certo que aquele velho piano de cauda vai ter que ficar.


 
Julio Ribeiro
Jornalista
julioribeiro@terra.com.br
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