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Coisa de criança

Durante minha infância, uma eletrola da marca Empire Statereinava na sala de estar. Um belíssimo móvel, com longas pernas arredondas, gaveta de toca-discos com puxador metálico, área dos alto-falantes com acabamento em tecido de fios dourados, uma relíquia, que se tivesse sobrevivido até minha idade adulta, ou até mais além, até eu ter idade o bastante para perceber sua preciosidade, por certo teria preservado, mas isso não aconteceu. Restaram as lembranças de quando eu a usava para fazer meus primeiros programas de rádio. Passava horas transmitindo para quem sabe quantos ouvintes imaginários conseguissem captar as ondas cerebrais de um meninosonhador. Além de LPs e compactos musicais, discos de vinil em 78 ou 33 rotações, havia também os de histórias infantis. O acervo não era grande. Só o compacto com a narração de Mogli, o Menino Lobo devo ter levado ao ar dezenas de vezes, mas os ouvintes nunca reclamaram. Os programas musicais eram mais variados, mas nem tanto.

Um dia ganhei um toca-discos portátil Telefunken, daqueles com tampa de acrílico, que tinha alça e se fechava como uma maleta, podendo ser transportado com facilidade. O melhor de tudo é que era só meu. Agora eu já não precisava esperar a sala estar livre, sem olhares talvez desconfiados de minha sanidade, para pôr no ar a programação de minha rádio. O quarto de dormir passou a ser meu novo estúdio. Em meio a músicas e trechos de historinhas infantis, eu fazia a locução de notícias e, sim, dos comerciais. Todos os meus programas tinham intervalos comerciais.

Meu pai havia sido locutor e apresentador de rádio, e minha mãe, cantora, entre outros, do Clube do Guri, do Ary Rego, e do Programa Maurício Sobrinho, quando o sobrenome Sirotsky ainda não se impusera, mas o Maurício já era um tremendo comunicador. Ela chegou a disputar o concurso Rainha do Rádio, tinha taça em cima da eletrola e tudo. Então, ao menos eu conhecia a origem de meu apreço pelo rádio.

Não sei até que idade durou a fantasia. Mais tarde, o gosto pela escrita acabou se impondo, e minha carreira no jornalismo se concentrou nesta área. Às vezes penso se aquele menino ainda não gostaria de, um dia, comunicar-se com ouvintes de verdade.


 
Eliziário Goulart Rocha
Editor
eliziario.goulart@gmail.com
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