Conheci Antônio Carlos Macedo na Fabico, a Faculdade de Comunicação da UFRGS. Entrou um ano depois de mim, e já era o Macedão, por causa do tamanho, imagino. Em seguida, ele começou a trabalhar na Central do Interior da Caldas Júnior, no dia 3 de setembro de 1974. A Central do Interior era uma estrutura montada por Antônio Britto que reunia informações dos correspondentes da empresa no Estado e produzia matérias para os veículos Correio do Povo, Folha da Manhã, Folha da Tarde (que tinha uma segunda edição diária chamada Final) e Rádio Guaíba. Naqueles tempos, se a gente estava numa faculdade de jornalismo, já podia trabalhar. Aconteceu comigo também. O Antônio Carlos Macedo vinha todos os dias de Esteio, onde nasceu há 52 anos, ia para a aula de manhã e para o centro da cidade à tarde. Mudou a rotina quando concluiu a faculdade, em 1977, mas continuou num ritmo puxado, pois também passou a trabalhar na rádio Guaíba, no início de 78. Foi em 1979, cobrindo o retorno de Leonel Brizola ao Brasil via São Borja, que conheceu a mulher, a estudante de administração Maria Cristina Nunes Macedo, hoje trabalhando com eventos e com quem tem os filhos Rafael, 23 anos, publicitário, Bibiana, 15 anos, e Guilherme, 12 anos. Em 80, saiu da Guaíba para coordenar o esporte da Central do Interior, e quando era subchefe da Central, em 1983, transferiu-se para a chefia de reportagem do Correio do Povo. Mas aconteceu uma infeliz coincidência: a empresa entrou em crise financeira, atrasou salários, enfrentou uma greve entre dezembro de 1983 e fevereiro de 1984. Isso vi por dentro, também trabalhava lá. Em maio, de 84, pressentindo o fim, ele saiu e conseguiu emprego na assessoria de Imprensa da Secretaria de Justiça, com Jarbas Lima (“A quem eu sou grato, porque ele acabou acolhendo um pai de família que recém tinha tido filho e estava com dificuldades”). Dá para ver que conheço bem o Macedo e o acompanhei em diferentes fases, inclusive na rádio Gaúcha, onde chegou em julho de 1984 (ele sabe as datas todas) como repórter esportivo, depois se transferiu para o jornalismo e hoje é âncora de dois programas, “Gaúcha Hoje”, entre 6h e 9h, e “Chamada Geral”, entre 11h e meio-dia. Além disso, tem uma coluna no Diário Gaúcho e um blog. Por isso, ao fazer esta entrevista, havia o risco de ser um encontro saudosista. Felizmente, não aconteceu assim. (O Julio estava ali vigilante para evitar deslizes não-profissionais.) O Macedo falou de sua vida, da profissão, de atitudes, revelou princípios. Valem para todos. Confira os detalhes:

Você estreou no microfone na Guaíba? A Guaíba recém tinha implantado um novo esquema de jornalismo. Ela levou um banho da Rádio Gaúcha na cobertura do incêndio das Lojas Renner. Ela tinha noticiado o incêndio basicamente em cima das notas oficiais da polícia e das Lojas Renner e das autoridades em geral, enquanto a Gaúcha, com três ou quatro unidades móveis, colocou a cidade a par do que estava acontecendo. Foi a senha para que o pessoal aceitasse uma proposta que o Ranzolin vinha fazendo. O Antônio Britto tinha saído da Central do Interior e estava lá para implementar este novo processo de jornalismo da Guaíba. E aí a rádio se abriu para a reportagem. Entrei depois de uma cobertura de praia, tinha uma vaga, a do Terlera, em fevereiro de 78. Eu fiquei ali dois anos, não imaginava seguir carreira de radialista. A sua idéia, então, era trabalhar em jornal, desde o tempo de estudante em Esteio? Eu caí no jornalismo meio por acaso. Como boa parte dos jovens até hoje, véspera de vestibular, tem que fazer a inscrição e a gente não sabe para que lado vai. Naquela época, estava na moda o curso de Administração. Eu ia me inscrever para Administração, não sabia por quê. Aí, conversando com meu pai — eu tenho na família um tio que é jornalista conhecido, líder sindical, o Antônio Carlos Porto, já aposentado do microfone, foi comentarista esportivo, foi cronista da Folha Esportiva e depois da Folha da Manhã, enfim, uma pessoa conhecida no meio — e o meu pai me disse “mas, vem cá, tu gostas no colégio de fazer jornalzinho, tu gostas de jornal, por que não segues o caminho do tio?” E eu resolvi, por falta de opção, por falta de convicção, abraçar o jornalismo. Acho até que surpreendi muitas pessoas na família. Porque eu era uma pessoa completamente tímida, daquelas que na sala de aula têm vergonha de levantar a mão para responder qualquer coisa. Aquele aluno que o professor fala e fica todo vermelho.
Ainda é tímido? Ainda. Eu tenho verdadeiro pânico de falar em público, participar de solenidades públicas.
Mas no microfone não? Não, no microfone não. Eu acho que é um escudo, mas se tiver que um público eu tremo ainda.
É uma família de quantos membros. Eu tenho duas irmãs. Meu pai (Adão Souza Macedo) era despachante de trânsito, minha mãe (Ilse Macedo) era do lar. Eram pessoas com pouca cultura, naturalmente, mas tinham a visão de que para sair do meio onde a gente vivia, um bairro pobre lá de Esteio, precisava estudar.
Sempre em escola pública? Sempre.
Trabalhava em alguma coisa? Não trabalhava. Eu estava naquela faixa em que os meus colegas trabalhavam e tinham uma grana. Mas o meu pai e a minha mãe diziam o seguinte: “Tu vais trabalhar agora, vai ter um dinheirinho. Mas mais adiante, vais continuar nessa vida, sem estudo, e não vai sair disso”.
Eles estão orgulhosos, hoje? Acredito que sim. Eu tiro uma base pelos meus colegas. A maioria dos colegas com os quais eu convivia lá em Esteio continua levando mais ou menos a vida que seus pais levaram. Poucos conseguiram ascender, se formar, ocupar uma posição melhor que aquela que os pais ocupavam.
E quando você veio para a Gaúcha? A Gaúcha surgiu como uma decorrência do fim do emprego na Caldas Júnior. Eu ainda tinha a vã esperança de que a Caldas Júnior se recuperasse. Naquela época, Brasília costumava socorrer os seus amigos com dinheiro fácil. Mas isso não aconteceu. Aí, ficamos todos sem emprego.
Isso foi em maio... Em maio de 84. Ai, sem emprego, fui para a assessoria da Secretaria da Justiça, mas era muito curta a grana. E eu não tinha idéia de trabalhar em assessoria de imprensa. Aí, houve uma mudança aqui na rádio Gaúcha. O Pedro Ernesto, Wianey Carlet, João Garcia e Paulo Mesquita resolveram formar a equipe da Rádio Sucesso. E aí abriram-se vagas aqui. O Belmonte foi contratado, não sei mais quem foi contratado e surgiu a lembrança, pelo Ranzolin e pelo Waldir Barbosa Paz, que tinha sido meu chefe na Caldas Junior, do meu nome. Eles queriam trazer alguém para o esporte que tivesse um pouco mais de formação jornalística, rompendo com aquele ciclo só de radialista. Eu achei que a idéia era boa, porque logo vinha a Copa do Mundo. Imaginava o seguinte: se eu trabalhar bem talvez eu consiga ir à Copa. Fui admitido em 16 de julho de 1984.
E foi para a Copa. Acabei indo para a Copa de 86. Justamente apostando no conhecimento, na bagagem jornalística que eu tinha. Eu era o último repórter da turma, era o quinto em cinco, o que não tinha experiência.
Eram o Darci Filho... Eram Darci, Belmonte, Silvio Benfica e Régis Höehr. Aí, eu era jogado nas coberturas assim, Grêmio fora do Brasileirão e ia jogar em Nova Prata, ou Igrejinha. Em cada evento desses, eu bolava uma pauta, trazia uma matéria, um negócio diferente. E o negócio começou a pegar aqui. Começaram a gostar. Em agosto de 85, o Antônio Augusto saiu da rádio. Ninguém queria fazer o programa dele, às onze e meia da noite. Atiraram para mim. Eu vim, encarei, com esta disposição de conquistar espaço, comecei a inventar coisas diferentes. O Antônio Augusto tinha um programa muito em cima dele. Dava furos, mas que não tinha aquela sistematização de cobertura de Grêmio, de Inter, os boletins entravam esparsamente, quando deixavam para ele. E nós sistematizamos esse tipo de cobertura, a coisa foi indo. Em dezembro de 85 o Darci foi para a Guaíba, e eu fiquei achando que seria efetivado na segunda vaga. Aí, ducha de água fria. Trouxeram o Pedro Ernesto de repórter. Digo, ah, agora me ferrei. Mas ainda apostava numa terceira vaga. E realmente, eles me levaram como terceiro repórter. Não para fazer seleção brasileira. Fazia a outra ponta, que era na Cidade do México. E graças a Deus foi uma cobertura interessante, com bons resultados pessoais e profissionais.
Você teve uma carreira ascendente no esporte e daí saiu. Você achou que não havia mais espaço, que existiriam três ou quatro monstros sagrados e que você não passaria de onde estava? Eu fiquei 18 anos fazendo cobertura esportiva e nesse período eu não posso reclamar, principalmente depois de 1991, quando o Pedro voltou a narrar eu passei a ser o repórter ponta da escala. Então, todo grande evento eu só não ia se não quisesse ir. Fiz cinco copas do mundo, três olimpíadas, fui o repórter que abriu caminho para uma cobertura jornalística de Olimpíada. Antes, a experiência da rádio tinha sido com o Belmonte, em 84, de acompanhar o Internacional, que representou o Brasil, e não a Olimpíada. Em 92, nem futebol tinha e eu fui a Barcelona cobrir os jogos olímpicos. Eu estava sentindo o seguinte: já me aproximava dos 50, não que a idade seja empecilho para a gente seguir sendo jornalista ou repórter esportivo. Só que vem uma geração que está querendo espaço, e eu estava começando a sentir que tinha que buscar uma saída. No esporte, tinham me acenado aqui com comentário. Primeiro, acho que não sei analisar futebol taticamente. Gosto de ver futebol mas não sou muito preciso...
É colorado ou gremista? A pergunta inevitável. É inevitável mas esta eu prefiro pular até em respeito às pessoas. É claro que todo mundo tem um time.
O teu foi campeão do mundo? Os dois foram. Mas eu buscava uma alternativa. A do comentário não queria por este detalhe das análises táticas, que eu nunca fui muito chegado, e porque nós temos aqui o melhor comentarista do Brasil, que é o Ruy. Enquanto o Ruy fosse comentarista é óbvio que jamais faria uma ponta de escala. Seria um suicídio um profissional imaginar que vai competir com ele. O Professor é o Professor. Então, o comentário eu deixava de fora e fui tocando, como repórter esportivo. Aí surgiu essa oportunidade de fazer o Gaúcha Hoje, em dezembro de 2002, abria mão do esporte, mas dava uma outra forma de visibilidade, eu não titubiei.
Mas houve uma época em que você fez esporte e também esteve no jornalismo, na Gaúcha. Eu comecei a fazer o Chamada Geral em 1993, às 11h e às 5h da tarde. Fiquei praticamente nove anos fazendo os dois Chamada e não ia mais ao estádio durante a semana. Só que em 96 nós assumimos uma espécie de triunvirato no esporte. O Pedro, o Cléber (Grabauska) e eu. Administrativamente eu lidava a semana inteira com o esporte. Às 11h e às cinco parava com o esporte para fazer o Chamada. Nas jornadas esportivas fazia o Pré-Jornada e o jogo em si.
O que é esse triunvirato? Agora não sei como está funcionando. Quando o Flávio Dutra saiu, o Ranzolin fez uma experiência que não deu certo. Ele trouxe o responsável pelo esporte da TV, o César Freitas, para fazer o controle das duas. Mas não deu certo e o César pediu para sair, depois de um ano aqui. Aí, o Ranzolin pegou o Pedro para ser o supervisor de esportes mas pediu que o Cléber Grabauska, que já era coordenador, continuasse coordenando o dia-a-dia, e pediu para eu assumir como editor. Então, a cabeça pensante do esporte no dia-a-dia ficou comigo, embora a gente fizesse reuniões e os cargos não fossem assim tão separados, tão isolados. Foi um período muito bom porque a gente recuperou uma série de coisas. As rádios, em 1997, em função de crise econômica, deixaram de cobrir seleção brasileira. Todas as emissoras de Porto Alegre, só faziam os eventos. Copa do Mundo, Copa América, mas amistoso, essas coisas, não faziam. Nós não aceitávamos aquilo. Em 97 a gente fez um projeto aqui, que criava uma espécie de segunda jornada esportiva, a gente denominou de França 98 que depois, sucessivamente, foi sendo renovado e nós levamos de novo a rádio Gaúcha, e por extensão a concorrência, nessa história de que um faz o outro faz também, para o dia-a-dia da seleção. Então, fosse amistoso, fosse torneio, onde a seleção marcasse presença, a gente ia atrás.
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