O Rio Grande do Sul é um Estado extremista. Isso tudo mundo sabe. Deve ser influência da geografia e do vento minuano. Por aqui, todos querem ser imortais e enterrar os oponentes. É o caso do Grêmio, do PT e da RBS. Não é por acaso que, na percepção do público em geral, a RBS é gremista, embora só seja petista quando conveniente. O problema é que os imortais também morrem. Ou só se tornam realmente fortes e interessantes quando possuem rivais à altura. Grêmio e Internacional vivem uma relação de simbiose. Ambos ganham e perdem na mesma proporção. PT e PMDB já passaram por isso, antes que a política caísse totalmente em descrédito e virasse piada. A RBS achava que reinava solitária, quase desprezando a concorrência da Caldas Júnior de Renato Ribeiro. Aí aconteceu o inesperado. A Record, pertencente à Igreja Universal do Reino de Deus, entrou no mercado gaúcho e está disposta a incomodar. No começo, muita gente torceu o nariz. Alguns continuam de nariz torcido, inclusive algumas agências de publicidade. Onde já se viu um grupo “estrangeiro” vir meter o bedelho no mercado gaúcho? Ainda mais um grupo religioso! A Record é o Boca Juniors. Ao menos, é o que se espera. Veio para estragar a festa na casa de um adversário auto-satisfeito e convencido da realidade da representação que inventou para si mesmo. A RBS vê-se como a própria imagem do Rio Grande do Sul. A sua estratégia consiste em mimetizar os valores regionais e fazer-se passar por porta-voz da cultura local. Na verdade, a RBS “vampiriza” o imaginário gaúcho e atribui-se o bom papel de ser a imagem que o gaúcho tem de si. Os próprios jornalistas passam a crer no mito do empregador. Alguns imaginam que só existe vida inteligente na firma onde trabalham. Preferem ganhar menos a sair da ilusão de que estão no centro dos acontecimentos e das decisões. É a “servidão voluntária”. No auge do seu delírio o PT gaúcho via-se como a encarnação do bem na terra. No apogeu das suas ilusões divertidas o Grêmio apresenta-se como um clube mágico, com uma mística e um poder sobrenatural a administrar. Se fosse apenas um golpe de marketing ou uma brincadeira, algo assim, seria genial. Mas os gremistas, assim como os petistas, acreditam nas histórias que contam, principalmente quando elas são totalmente inverossímeis. A RBS faz o mesmo. Talvez seja da natureza das empresas. Ainda assim, algumas vão mais longe nesse jogo de auto-ilusão e de domesticação dos seus públicos. A RBS é imperialista e submete Santa Catarina ao “mico” da repetição do modelo “gaudério” de fazer jornalismo e entretenimento. O sujeito liga a televisão em Florianópolis e vê uma clonagem autorizada da programação de Porto Alegre. Depois não querem que os catarinenses nos odeiem! Os gurus da mídia, ainda atolados na modernidade, acreditam piamente na relevância da padronização. Querem tornar tudo homogêneo. O sotaque deve ser o mesmo por toda parte. O cenário deve ser repetido em todos os lugares. Deve existir uma identidade visual. Não há nada que incomode mais um moderno do que a diferença, o mosaico, o caos, o barroco, o caleidoscópio, a colcha de retalhos e o carnaval da vida. Os teóricos da administração são quase todos modernos empedernidos que não podem ver um quadro levemente inclinado na parede. Cultuam a simetria. PT, Grêmio e RBS têm tentado disseminar esse fetiche do discurso padronizado. Claro que nem todo gremista é petista, assim como nem todo fiel à RBS é gremista. Em termos! Na essência, são iguais, um é o negativo do outro. Foi isso que mostrou Álvaro Larangeira no seu instigante livro A COMUNICAÇÃO MONOTEÍSTA (Sulina, 2006). Mesmo que a Record não consiga fazer uma revolução na mídia gaúcha, algo que está quase sempre fora do ideário dos meios de comunicação, só o fato de que está provocando dor de cabeça na RBS já tem o gosto de um gol de Riquelme em pleno Olímpico. Tudo aquilo que incomoda o Grêmio, o PT e a RBS é bom (não venham me chamar de reacionário, pois sempre votei no PT). Não se trata de uma posição de princípio. Tudo sempre pode mudar. Mas de situação concreta. A colonização do imaginário gaúcho pela RBS tem contribuído para a imagem “Polar” do Rio Grande do Sul. Chega de “porto-alegrês”. Dá-lhe, Boca! Dá-lhe, Record! |