Duas coisas não podem acontecer com uma empresa familiar: não se modernizar e querer ser moderna demais. A RBS adora ser moderna. Gosta tanto disso que cai no conto de qualquer vendedor de catedrais. Ama uma consultoria externa, essas coisas que americanos inventam para tomar dinheiro de empresários em busca de legitimação, ou um executivo jovem, agressivo e impiedoso. A ralé, quando chegam esses mágicos, dá um jeitinho: faz de conta que acredita e deixa passar o surto. Os doidos resistem e são demitidos. Os bajuladores entusiasmam-se e pagam mico. A última modernidade da RBS é a contratação de um japonês cuja credencial maior é ter trabalhado no Google. Consta que o cara é modernoso, crê piamente nas virtudes da juventude e detesta os velhos.
Dizem que o sujeito anda pela empresa espiando. Se descobre um velho, demite. Até Nelson Sirotsky, 59 anos, dono da casa, terá de retirar-se. A regra é sair aos 60. Veja-se o ridículo da coisa: 60 anos é o auge da maturidade intelectual. O dono do brinquedo terá de largar o jogo e ir para casa morrer de tédio para legitimar o besteirol que lhe venderam e ele vendeu para os seus comandados. Bateu o horror no caixote de concreto da Ipiranga. Tem muito executivo louco para brincar mais 20 anos, pois nada mais divertido para um rico do que ter algo interessante para fazer, por exemplo, um trabalho. Não vai dar. O japonês não deixa. Veio para renovar. Vão todos para o Conselho de Administração, um depósito enfadonho onde podem dar alguns palpites e contar histórias do tempo em que exerciam realmente o poder.
Não fosse a entrada da Record no Rio Grande do Sul, velhinhos da linha de frente, como Paulo Sant’Ana, Lauro Quadros, Lasier Martins e Rui Carlos Ostermann, já estariam definitivamente de pijama. O temor de que passassem para o outro lado garantiu-lhes uma sobrevida e, em alguns casos, cláusulas contratuais concedendo gordas vantagens para que eles, mesmo se afastados, não cedam à tentação de recomeçar no campo adversário. Dizem que se trama lançar a candidatura de Lasier Martins ao Senado para tirá-lo do caminho do japonês. O problema é que o venerando Pedro Simon está fora do alcance do japinha e pode querer seguir. Fiquei sabendo que tem vovô que, antes de ir trabalhar, liga ansioso para a firma:
– O Japa do Google está aí hoje?
– Passei por ele agora.
– Então não vou aparecer. Diz que viajei.
O japa mete medo em todo mundo com mais de 45 anos. Cristina Ranzolin teria adotado aquele iPad inútil no Jornal do Almoço, que lembra mais uma prótese ou um apêndice, só para parecer mais jovem e moderna. Pelo jeito, está conseguindo enrolar o japa. É verdade que alguns dos seus alvos estão na área desde a recente derrota do Brasil para o Uruguai no Maracanã, em 1950.
Alguns velhinhos resistem tanto ao poder avassalador do japa que já estão sendo chamados de fantasmas da ópera. Um deles, espectro com ar de zumbi, estaria tentando seduzir o japa com a mesma lábia que aplicou em Julio Iglesias. O japa, porém, é osso duro. Tem uma meta no seu planejamento estratégico: botar velho na rua.
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