Quando um pedido de trabalho chega em uma agência, as dúvidas brotam espontaneamente e as perguntas caem do céu como chuva de canivete. Certo dia, adentra o gramado da criação o job de uma concorrência pública, a famosa licitação. O cliente é a República Federativa do Brasil, que solicita a criação de uma campanha que potencialize a melhora de resultados do país. O briefing faz um balanço rápido do panorama e indica alguns links na internet para mais informações.
O briefing ressalta que o Brasil é a sexta economia do mundo e que a Copa de 2014 deve ser encarada como o símbolo do nascimento de um novo país, o marco de uma nação que finalmente ultrapassará a condição de subdesenvolvida e emergente, assumindo sua posição de líder global.
Reunião. Cafezinhos. Bate-bola. Frases rolando na mesa. Poucas ideias. Muitas perguntas. Alguém diz que o job deve ser pegadinha do Faustão. Ou então é coisa do Bial, só pode. Cadê as câmeras? Os incrédulos logo são advertidos de que o PIT é real como a nossa moeda. E a verba é astronômica. Ao trabalho.
Mais café, mais perguntas. Nesse caso, éticas. Seria justo ressaltar a Copa do Mundo num país que não tem saneamento, educação e ainda por cima é violento e tem o vírus da corrupção nas veias?
O diretor de criação entra em cena e alerta: a reunião é da agência, não do PSTU. Guardem as críticas pro barzinho na Cidade Baixa.
Em vão. O pessoal continua chutando pontos de interrogação como tucanos exasperados diante do fantasma lulista. Muitas perguntas, nenhuma resposta. Até que alguém levanta a taça de uma questão importantíssima: o briefing, naturalmente, supõe que o Brasil vença o certame. E quem garante que isso vai acontecer? O Neymar? Combinaram com o Messi? Falaram com a Alemanha sobre isso? Pediram pro Uruguai não reeditar o Maracanaço?
Pausa reflexiva. Profunda. O diretor de criação retoma o microfone. Há um desvio do foco. É preciso ajustar a mira. O briefing aponta um caminho que não pode ser deixado de lado. Brasil, Copa do Mundo, nascimento de uma nova potência mundial. O resto é irrelevante.
Mesmo assim, continua o tango. As ideias pipocam, mas não vingam sobre o óleo fervente de uma criação tão motivada quanto o Ganso. Qual a melhor maneira de estimular o ufanismo nacional? Paisagens brasileiras típicas, números, gente feliz de todas as cores, mais números e um sambinha de trilha sonora?
Quem sabe apelar para outra fórmula certa: uma campanha que misture artistas globais e jogadores de futebol. Depoimentos do tipo “mesmo que o Brasil não ganhe a Copa, ganharemos o mundo”, “vamo fazê tudo que o professor mandar, mas o que importa é ser brasileiro sempre”. O Mano vai ficar Muricy da vida. A CBF vai ameaçar uma virada de mesa, no que só perde pra Fifa.
O diretor de criação se exaspera. Com esse ânimo e essas ideias, a concorrência está perdida. Será preciso contratar alguém de fora, que coloque mais criatividade em campo. Alguém lá do canto levanta o dedo e diz “conheço um cara bem criativo. E ele é argentino. Tá na moda no futebol. Talvez ajude a fazer o meio de campo aqui também”.
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