O fim é o eterno retorno do começo, uma sucessão de pegadas, de rastros, de indícios, de evidências, de pistas, crime imperfeito, mas com muitos cadáveres ao alcance dos olhos. Mike McCue, o criador de Flipboard – destruidor da última vantagem das publicações impressas, a qualidade estética das diagramações e fotos – declarando no jornal espanhol El País no começo de 2012: "Dentro de 10 años solo leeremos en tabletas. Comprar un periódico o una revista en papel se verá como una experiencia retro, casi de lujo. Eso no significa que los medios vayan a desaparecer, simplemente está cambiando el modelo de distribución". A década seguinte já chegou.
É só uma questão de tempo. Se Karl Marx havia mostrado que o capitalista se apropria de um bem imaterial, o tempo excedente do trabalhador, o pirata da internet se apropria de dois bens imateriais: a cópia virtual e o trabalho dos autores. Ao tentar saquear o capitalista malvado, saqueia o produtor. Se McCue está certo e só se lerá em tabletes em dez anos, o declínio, a morte ou a mutação radical do autor são inevitáveis, salvo se o poder simbólico ou tecnológico inventar uma nova maneira, por exemplo, a lei, ou mecanismos técnicos, para evitar a cópia em escala industrial. Uma coisa era a cópia artesanal da época da música em fita cassete, outra já era o xerox, outra ainda é a possibilidade da cópia ilimitada, xerox universal, serviço virtualmente planetário, como o famoso megaupload, fechado pelas autoridades norte-americanas em 2012 gerando polêmica.
Uma coisa era a cópia ponta a ponto, outra é o self-service globalizado, que também acontece no modelo P2P ampliado (Bram Cohen, inventor do BitTorrent, ao apresentar uma nova versão do protocolo P2P, disse que seu objetivo é matar a televisão), em escala industrial, ou nas torrentes caindo de nuvens que se autoabsolvem por serem meras hospedeiras ou simples pontos de passagem. Na internet, quando a obra está em todos os lugares e pode ser copiada infinitamente, não há mais uso pessoal. Se os defensores da cópia livre multiplicam falácias – os autores não ganham mesmo, a cultura não pode ser mercadoria, quem baixa um livro compra outro, a cultura custa caro, é como pegar uma velha fita cassete de um amigo –, a evolução tecnológica indica que não haverá razão em breve para qualquer compra se tudo estiver disponível para ser baixado em aparelhos poderosos. Se o autor voltará de vez ao lumpesinato, ao diletantismo da vontade expressão, como um poeta escolar ou adolescente, ou se viverá da esmola de amigos e comunidades de apoio, num retorno a uma espécie de escambo saudado pelo que se vangloriam de estar no apogeu do século XXI e que constituirá um retrocesso ao século XIX, tudo isso se descortina como o fim de um épico.
O consumidor tem nova percepção e considerará, cada vez mais, inadequado pagar pelo que pode pegar gratuitamente: a obra intelectual, a música, o livro. Fim de um valor. O defensor dos direitos autorais poderá ser visto como um usurpador, um parasita, um inimigo do povo, um anacrônico representante inconformado do antigo regime, um capitalista selvagem vendo o seu mundo ruir.
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