Senhoras e senhores, meus caros leitores, há alguns dias me dei conta de que talvez esteja sofrendo uma mutação genética. Tudo bem, pode ser apenas um efeito do stress de um par de anos muito peleados, o efeito colateral de quem passa 8 horas por dia na frente de um computador ou um sintoma passageiro e prematuro de uma possível crise dos 50, mas o fato é que me dei conta disso e, pior, nem me assustei tanto quanto deveria.
Mas o que, afinal, está ocorrendo com este “publicista latino-americano”? Bem, primeiro os fatos. Por três décadas e pouco eu li uma média de 50 livros por ano, sem contar as releituras. “O Túnel” do Sábato, por exemplo, li umas quatro vezes, o “Cem Anos de Solidão” do Gabo, mais umas três e por aí vai.
Ao todo já devo ter passado dos 1.700 títulos lidos. Sempre tive dois ou três livros sobre o criado-mudo e mais um ou dois na revisteira do banheiro. Já teve obras que li de uma sentada, em sete, oito horas ininterruptas. De outras, gostei tanto que comprei vários exemplares para presentear amigos. Livros sempre foram meu sonho de consumo. Em vários momentos da minha vida comprei mais livros do que minha capacidade e tempo de lê-los. Sempre tive, pelo menos, uma dúzia na fila.
Ocorre que – e só recentemente me dei conta disso – nos últimos dois anos, mais ou menos, eu parei de ler. Foi um processo gradual, mas confirmado, de abandono dos livros. Não sei se é algo temporário, um tempo na minha relação com o livro impresso. O fato é que no ano passado devo ter comprado, no máximo, uns dez volumes, e neste ano comprei apenas dois. Afora uma meia dúzia que ganhei de amigos. Por exemplo, li, há poucos meses, três livros muito bons do Barbosa Lessa, que ganhei dos editores. Depois tentei, sem sucesso, reler um Eric Hobsbawm e agora estou gramando pra reler um Mika Waltari.
E sabem o que é ainda mais grave? No ano passado, conversando com uma amiga que me relatou ter doado todos os seus livros impressos e que agora sua biblioteca é virtual, toda no iPhone, eu não me escandalizei, não a chamei de herege e nem de sacrílega, pelo contrário, fiquei ruminando a ideia por semanas e, seguidamente, me pego pensando em como reaproveitar a parede do meu escritório, atualmente ocupada por uns 2 mi livros.
Sabem aqueles peixes que vivem em cavernas escuras e que vão atrofiando sua visão até não precisarem mais de olhos? Ou aqueles animais que nascem com uma perna a mais ou a menos? Estou parecendo quase uma aberração, e o mais assustador é que não estou me assustando com isso. Estou de boa, como diz a galera. Não estou me sentindo menos inteligente ou mais burro, não estou me sentindo culpado e nem um ET, até porque a maioria das pessoas não dá mesmo tanta importância para livros.
Será que isso é passageiro? Será que minha fissura por livros vai voltar? Ou será assim pra sempre? Humm..., eu poderia encher aquela parede com quadros...!
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