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Clóvis Duarte

Clóvis Duarte é um campeão. Um vitorioso. Duvida? Apenas um dado: está há 30 anos no ar, com programas em diversos canais de televisão de Porto Alegre. Começou despretensiosamente na então TV Gaúcha – hoje, RBS TV – comentando as provas do vestibular de janeiro. Hoje, apresenta o Câmera 2, na TV Guaíba. Há 12 anos.
De Porto Alegre, onde nasceu em fevereiro de 1942, Clóvis não pretende sair.
“O meu projeto é o Câmera 2”, afirma.


O ponto de partida para a carreira televisiva foi o Instituto Pré-Vestibular, o lendário IPV, criado em agosto de 1964 por ele e um grupo de professores, depois que um curso que funcionava na UFRGS, o Franklin Delano Roosevelt, foi fechado pelos asseclas da redentora. Em poucos anos, o cursinho era um estrondoso sucesso e razão principal dos professores serem catapultados para a TV. Outro que teve muita popularidade foi José Fogaça, hoje senador da República.


Quando decidiu vender o IPV e se dedicar aos programas, há 22 anos, só criou sucessos, como o Portovisão e o Comunicação. Passou pela RBS, Pampa, Bandeirantes (antiga Difusora). Sempre com sucesso. E, por isso, hoje é um homem que trabalha muito. E é rico – o que deve irritar muita gente.

 

PRESS - Como o professor Clóvis foi parar na televisão?
CLÓVIS DUARTE
- Os cursinhos pré-vestibular estavam começando a se estruturar, e o Maurício Sirotsky Sobrinho, dono da então TV Gaúcha, me convidou para fazer comentários sobre vestibular. Ele tinha espaços disponíveis e comecei num domingo, em janeiro de 1970. O nosso objetivo era atingir também aqueles que não faziam cursinho e os pais. E nós ficávamos lá, tínhamos toda a tarde. Eu, o Fogaça e outros professores do IPV (Instituto Pré-Vestibular, fundado por Clóvis e outros professores). A repercussão foi muito boa. Gostavam do nosso estilo. E para o IPV, que foi fundado em 1964, também foi muito bom.

PRESS - E a seqüência desses programas?
CD
- Em 1971 já nos organizamos mais, havia inclusive chamadas dentro da programação. Em março de 1972 foi criado o Jornal do Almoço. Aí começamos a ser convidados para ter algumas participações ao meio-dia, durante a semana no jornal. Permanente. No início falando sobre as nossas cadeiras. Eu, por exemplo, falava sobre genética, uma coisa nova, e o Fogaça sobre português. Aos poucos, fomos convidados para ficar na parte de variedades, que era comandada pela Célia Ribeiro, depois pela Tânia Carvalho.

PRESS - Como surgiu o Portovisão?
CD
- Em 1974, o Salimem Jr. comandava a TV Difusora, junto com o Walmor Bergesch, e eles me procuraram para que montasse um programa ao meio-dia. Já estava gostando e via que tinha um excelente resultado para o IPV, como empresa. Aí convidei o Claro Gilberto para organizar comigo o programa. Criamos uma empresa, a ITV. Na nossa megalomania, de repente, como tinha a cobertura do IPV, resolvemos crescer. Não íamos fazer um programinha. Chamamos a Tânia Carvalho, Sérgio Jockymann, Cascalho, Fogaça. Ainda não contente, trouxemos o José Antônio Daudt, Renato Pereira. E entramos no ar no dia 10 de outubro de 1974.

PRESS - Ficou no ar quantos anos?
CD
- Sob o comando do ITV ficou dois anos. Os padres que eram donos da Difusora resolveram romper o contrato. O programa não parava de crescer, o faturamento era muito bom e eles cresceram o olho. Nos indenizaram, não fizeram nenhuma sacanagem, tudo direitinho. Só queriam o programa. Aí voltei para a Gaúcha para fazer o Comunicação. O Claro Gilberto era o produtor de um programa que é base para muitos que estão no ar ainda, como o Vídeo Show, o Faustão, Gugu. Por quê? Porque eu mostrava os bastidores, as pegadinhas, essas coisas. Isso em 1978. Isso com a tecnologia da época. Por exemplo, o Renato Pereira ia para a rua, filmava, depois tinha revelação, uma mão-de-obra muito grande.
Gostaria de lembrar o seguinte: tinha assumido a Difusora uma pessoa extraordinária – que infelizmente já morreu – que é o Chico Carlos. Ele montou, por exemplo, o Câmera 10. Um mês e pouco depois que começou o Portovisão, que foi um sucesso enorme, porque nós desmontamos o Jornal do Almoço. Só não foi o Paulo Sant'ana. Mas depois foi. Ficou um mês e pouco na Difusora. Mas, voltando para o Chico. Ele me chamou e disse que havia a possibilidade de trazer o Geraldo José de Almeida, que tinha sido o cara da Copa de 1970. Estava rifado na Globo e a Difusora dominava o esporte no Estado. Queriam trazer o Geraldo mas não tinham cacife. Pediu para que eu bancasse uma parte. E trouxemos o cara, direto da Globo. Ficou dois anos aqui. Neste tempo, o Inter foi bicampeão brasileiro com a nossa cobertura.

PRESS - Nesses 30 anos de televisão, quanto tempo você ficou fora do ar?
CD
- Em nenhum momento. Eu não sei de alguém que tenha mais tempo de permanência no ar. Apesar de o Paulo Santana dizer que está há mais tempo. Nunca fiquei fora, fui sempre trocando. Em 1982, resolvi fazer o Comunicação sozinho. Aí saí da RBS e fui para a Bandeirantes. Daí fui para a Pampa. Sempre achei que havia espaço para um programa local à noite. Tinha essa certeza.

PRESS - Quando você veio para a Guaíba, tinha alguma pessoa com horário comprado?
CD
- Não, eu tinha o horário que quisesse.

PRESS - Como você entrou na vida do Renato Ribeiro?
CD
- Foi assim: eles me procuraram em 1987 para trazer o Comunicação para a Guaíba. Estava na Pampa e tinha muitos problemas com a Manchete – programação instável, era cortado. Eram muitos atritos. Aí me ofereceram um horário para um programa jornalístico, que é o que eu tinha na cabeça. O Comunicação eu fazia no domingo à noite, e logo em seguida começamos a montar o Câmera 2. Um ano depois ele entrou no ar, em 4 de janeiro de 1988. Os primeiros programas de teste foram feitos em outubro de 87.

PRESS - Quais os melhores momentos do Câmera 2 nesses 12 anos?
CD
- Olívio se elegeu em 1988. Ninguém acreditava no PT. E o Câmera 2, dentro da sua filosofia de sempre abrir o leque, com total liberdade, deu muita abertura para ele, assim como para os outros. Na noite anterior à eleição, nós divulgamos uma pesquisa que dava Olívio na frente. Isso deu credibilidade ao programa, mostrava independência. E havia uma filosofia na casa contra o PT. E em outras situações ocorreram fatos semelhantes, eu discordando de uma posição da casa. Nas eleições presidenciais recebemos todos os candidatos. Inclusive o Collor de Mello. Foi o único programa no Estado em que ele deu entrevista. Aliás, foram duas. Entrevista para a RBS ele deu em Santa Catarina. Acontece que a mãe dele, a dona Leda, era assídua telespectadora do Câmera 2.

PRESS - O Câmera 2 passou por vários governos e neste tempo assumiu posições contrárias aos governantes. Que tipo de sanção o programa sofreu? Como é esse jogo?
CD
- A briga mais séria foi no Governo Collares. Começamos, eu e o Barrionuevo, a mostrar os problemas que vinham acontecendo na TVE, na Secretaria de Educação, enfim, denúncias que eram documentadas. Foi uma pressão muito grande contra o programa e, inclusive, ameaças. O primeiro recado que eu recebi, fui para o ar e respondi, coisa que eles não esperavam. Disse que não ia mudar, que as verbas publicitárias eram um problema do Governo do Estado. A casa sempre me apoiou e eu perdi todas as verbas do Governo, e algumas empresas privadas, pressionadas pelo Governo, tiraram verbas do Câmera 2. Sei todas que fizeram isso e as que permaneceram aqui. Como resultado, tudo que acontecia eu contava no ar. Aí, o Carlos Bastos, secretário de Comunicação do Collares, mandou uma carta – que foi um erro, mas hoje estamos amigos de novo – me chamando de picareta, que não era jornalista, que não era nada. Aí peguei a minha carteira do trabalho, mostrei no ar, dizendo que as pessoas que estavam no Palácio Piratini não tinham credibilidade. Continuei sem todas as verbas, mas o programa continuou, só cresceu. Na eleição, o Collares entrou com uma ação contra o Câmera 2 e fomos tirados do ar. Também num debate entre o Brizola e o Simon... Para a entrevista foram convidados jornalistas de todas as redações, e mostramos a cadeira vazia, que deveria ser do Simon.

PRESS - Há 12 anos o PT está na Prefeitura de Porto Alegre. Às vezes, você tem posições contrárias à Prefeitura. Já houve algum problema?
CD
- Não. Nunca tive problema nenhum. As verbas publicitárias... é normal. Não temos verbas federais e nunca tivemos. Vejam, os políticos do Rio Grande do Sul jamais se preocupam em trazer aquelas verbas gigantescas que existem, como Caixa Federal, Banco do Brasil, para prestigiar os programas que abrem espaços para esses políticos. Eu não tenho e ninguém tem.

PRESS - O Clóvis, além do programa de televisão, tem outros negócios? Alguma coisa em Miami?
CD
- Só televisão. Tive uma idéia de montar uma emissora lá, junto com a Casa, mas na época chegamos à conclusão de que não era viável. Seria uma estação que operaria em conjunto com a Guaíba, num link 24 horas, onde alguns programas viriam daqui e outros de lá.

PRESS - E sair de Porto Alegre, nunca passou pela sua cabeça?
CD
- Muito difícil. Me convidaram... Mas eu acredito que um programa no estilo do Câmera 2 tem que ser feito por uma pessoa que conheça a cidade. E eu me atrevo a dizer que conheço essa cidade. Posso falar de coisas de Porto Alegre sobre todos os assuntos. O sucesso do programa é o localismo. A internet só somou para nós. Permite que eu concorra com as redes nacionais, dando notícias antes. E só dou aquilo que interessa à cidade. Ou notícias exóticas.

PRESS - E o assédio de políticos, empresá-rios e das mulheres?
CD
- É grande, mas acredito que depois de 12 anos todos já entenderam que o programa é independente. Aí tem uma coisa importante que é a independência do patrocínio... uma das coisas que aprendi lá nos primeiros passos da televisão, com o Maurício, com o Jaime, era de que não podia depender de um patrocinador só. E lembro do Jornal Meridional, uma das belas idéias de que participei, na TV Pampa. Morreu no dia em que o banco tirou o patrocínio. Quando vim fazer o Câmera 2 aqui, vim com essa idéia, de que tinha que ter “n” patrocinadores. Criei várias situações de patrocínio, de merchandising. Todo dia com coisas novas. Eu tenho, por mês, 50 autorizações, como o patrocínio, uma citação, uma logomarca, um display na página. Por isso, nunca fiquei dependente de governo. Quando o Collares tirou a verba do programa, ele tirou 30%. É bastante, está certo, mas não me matou.

PRESS - Em algumas redações se diz que para ser entrevistado pelo Clóvis tem que pagar. Como é que funciona isso?
CD
- Existe o merchandising. Não tem um político que diga que pagou. Quando fiz o programa, convidei um de cada partido, pessoas íntegras: Jarbas Lima, Antonio Holhfeld, Isaac Ainhorn e Germano Rigotto. Hoje tenho um critério para convidar: não trago para o programa pessoas que tenham envolvimentos aéticos dentro da política. Não provo, mas conheço vários casos. Não tem empresário que possa dizer que pagou para dar entrevista. Diferente é merchandising, que aparece, digo o nome – estou lançando o edifício tal, de tal empresa. Não faço coisa camuflada, como fazer a matéria jornalística com patrocínio. Fazem aí descaradamente. Coisas do tipo: se patrocinar, entra no noticiário.

PRESS - Quando o Clóvis atingiu o primeiro milhão de dólares?
CD
- Tudo que eu tenho ganhei trabalhando. Dependo do meu trabalho e para isso me preparei. Num país como o nosso sinto-me um vitorioso. Tudo que eu tenho está no meu imposto de renda, e ganhei quando fui do IPV e depois nos programas. Tenho um bom patrimônio, mas trabalho muito, todos os dias durante todo o dia.

PRESS - Projetos novos?
CD
- O meu projeto é o Câmera 2, um programa local. E este tipo de programa nunca vai deixar de existir. Nos Estados Unidos, os noticiários locais têm espaço maior do que as notícias nacionais. Exatamente o contrário daqui. Aposto nisso.

PRESS - O que mais te enche o saco?
CD
- Não ter uma ação difundida de otimismo. A palavra é essa – otimismo. Se voltasse a 64... fui de uma geração que foi liquidada, mas sempre fomos fazendo. Fizemos coisas muito interessantes, como o IPV, onde havia toda uma vida cultural.

PRESS - O que mais gostas do Rio Grande do Sul?
CD
- A convivência, por incrível que pareça. As nossas tradições são mantidas. Aqui existe esta coisa do vizinho. Por exemplo, nos Estados Unidos essa vivência é horrível. Os clubes são fechadíssimos.

PRESS - Quem marcou aqui no Estado?
CD
- Já citei o Salimen, o Maurício, o Jaime, um dos homens mais competentes na área de televisão, o Cândido Norberto – anunciava o IPV no Sala de Redação porque queria que ele falasse, pela credibilidade –, o Fernando Westphalen, da Continental, onde tive a oportunidade de participar de uma rádio que marcou história no Estado, e vários outros colegas.

PRESS - A sua relação com a Tânia Carvalho sempre foi uma relação de amor e ódio, não?
CD
- Não, sempre foi de amor, nunca teve ódio. Sempre trabalhamos muito bem juntos, e quando ela deixou de participar de programas meus foi por motivos profissionais ou pessoais.


 
Marco Schuster
Editor
marcoschuster@terra.com.br
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