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Clóvis Heberle


Histórias de um foca temporão



Comer o pó da estrada, sentir o cheiro de sangue dos acidentes, quebrar cabeça até conseguir um lead interessante para um assunto banal. Os primeiros passos de um jornalista numa redação geralmente são dados na reportagem das editorias de Polícia ou de Geral. No meu caso foi o contrário: talvez por temperamento, talvez pelas oportunidades que apareceram, fui editor antes de ser repórter. Passei a maior parte da minha carreira na “cozinha” e a melhor reportagem foi publicada depois que me aposentei, em 2005, quando finalmente tive tempo para escrevê-la.
A primeira chance de trabalho que surgiu já definiu a minha vocação: selecionado para um estágio (remunerado) de locutor da rádio da Universidade do Rio Grande do Sul, no terceiro semestre da faculdade, entrava em pânico diante do microfone. De nada adiantava repetir para mim mesmo que a audiência da rádio era pequena. Depois de três meses pedi transferência para a redação e me senti muito melhor escrevendo e fazendo entrevistas.
Os nove meses de estágio, em 1971, valeram pelas aulas práticas de jornalismo e por memoráveis partidas de futebol de mesa no estúdio de produção. Uma noite por semana a mesa, de tamanho oficial, era retirada pelos jogadores de trás de uma cortina verde, onde ficava escondida, para mais uma rodada dos campeonatos.
No final daquele ano saí a viajar pela América do Sul, mochila nas costas, com um grupo de colegas da faculdade. Ao voltar, oito meses depois, consegui o primeiro emprego de jornalista com carteira assinada, de redator na mitológica rádio Continental, de Porto Alegre. Em plena ditadura militar, no início da década de 1970, os noticiários da primeira rádio jovem da cidade tinham sempre um tom crítico, com textos descontraídos e às vezes debochados. Garimpávamos as informações nas emissoras de São Paulo e do Rio, com um rádio potentíssimo, de ondas médias e curtas, da Segunda Guerra Mundial, e mandávamos ver. A passagem pela Continental durou só meio ano...
Depois, um novo aprendizado: lidar com scripts de tevê. Ainda eram os tempos heroicos do filme em preto e branco, a RBSTV se chamava TV Gaúcha e as vacas eram magras, magérrimas. Recebíamos os salários no dia 10. O pessoal da redação lotava as picapes Rural Willys da reportagem para descontar os cheques no Banco da Amazônia, no centro da cidade.
Quando fui convidado para trabalhar na recém-montada Central do Interior da Caldas Júnior, fiquei deslumbrado: além dos salários serem bem melhores, recebíamos no último dia do mês, em dinheiro (com moedinhas e tudo, num envelope), e adiantamento no dia 15. De redator passei a coordenador das sucursais e correspondentes que a empresa mantinha em Santa Catarina, São Paulo, Rio e Brasília,e tive a chance de pautar e distribuir aos jornais Correio do Povo, Folha da Tarde e Folha da Manhã algumas excelentes reportagens.

Matéria na íntegra na revista Press Advertising


 
Marco Schuster
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