Eu nunca duvidei de que a biografia de Paulo Coelho, “O mago”, escrita por Fernando Morais, era chapa branca. Paulo mandou tanto que Morais ficou deprimido. Quase desistiu. No diálogo que mantiveram, conforme os e-mails dos dois aos quais este colunista teve acesso, Paulo tratava Morais de “Abade”, que o chamava de “Monsenhor”. Paulo leu tudo antes da publicação, ao contrário do que Morais badalou, e pediu cortes e modificações. Houve momentos em que amou o texto: “Estou saindo agora para um evento que deve demorar o dia inteiro, mas queria cumprimentá-lo pela verdadeira obra de arte que tenho em mãos. Sei que irá me indispor com muita gente, e terei que dar algumas entrevistas justificando minhas opiniões sobre a MPB, mas é brilhante a maneira com que está escrita. E eu era assim, por que negar?”. Em outros momentos, “Monsenhor” odiou o material e revelou precisar de coragem para continuar a leitura: “Conforme nossa combinação, na pg 10 da bio ainda estão as duas leitoras ali, e não deviam estar, mesmo eu jurando ou deixando de jurar qualquer coisa. Essa é uma bio do bem, não dá para insinuar este tipo de coisa, concorda? E agora que o tema entra na Christina, eu conto com você para que absolutamente o rapaz do passado, que abriu os diários para você, e que pode ter tido um passado como está ali escrito, não seja o mesmo que o escritor do presente, casado com a mulher que amo”. Paulo Coelho estava preocupado com uma passagem que deveria aparecer assim: “Duas garotas – uma loura de olhos verdes e outra também clara e de olhos violeta – haviam se incorporado ao grupo ainda na feira literária. Junto com os demais, elas chegam ao hotel à meia-noite. A certa altura, ambas desaparecem junto com o escritor. Na manhã seguinte, o grupo se desfaz. Como costuma reagir em circunstâncias semelhantes, Paulo jura que nada aconteceu entre os três”. Não ficaria bem para o “Monsenhor” ser apresentado com um devorador de tietes. Pegaria mal com a patroa. Reagiu corrigindo até o estilo de Morais: “Se não for algo difícil para você, eu cortaria as duas últimas frases. Em primeiro lugar, na manhã seguinte o grupo se dezfaz (sic) implica que ficamos juntos durante toda a noite. Em seguida, neste caso, vou jurar para quem? E por que preciso jurar? Alguém me perguntou algo? Ninguém, em sã consciência, me perguntaria nada, e se me perguntasse, eu entenderia como uma afronta, não concorda? A bênção”.
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