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Rodrigo Lopes

Um repórter de mundo

Natural de Porto Alegre, 31 anos, Rodrigo Lopes formou-se em jornalismo pela UFRGS em 2001, mas trabalha desde 1996, quando começou na Zero Hora como auxiliar de redação, “uma espécie de office-boy interno”. Conta isso com orgulho, pois “foi ali que aprendi todo o processo de fazer jornal, desde recolher material no arquivo, digitalização de fotos, etc.”. Estava no Copyright, uma espécie de antessala da Redação, e recebeu convite de Luiz Zini Pires para trabalhar na editoria de Mundo.

Naquele tempo, as notícias internacionais eram basicamente chupadas de agências de notícias. Espaço para quem tem iniciativa: “Logo vi que poderia tentar alguns furos mesmo por telefone: minha primeira grande reportagem foi uma entrevista exclusiva com o general Lino Cesar Oviedo, foragido, acusado de golpe de Estado no Paraguai”. A entrevista foi reproduzida pelos jornais La Nación, ABC Color, El Tiempo e até na CNN. Isso abriu algumas portas, como a viagem para cobrir a eleição de 2003, na Argentina, logo após a crise. A série “Uma Nova Chance para a Argentina” acabou ganhando o Prêmio Rey de España, que recebeu das mãos do rei Juan Carlos, em Madri. “Tinha 25 anos, era um guri”. Fez pós-graduação em jornalismo literário e especialização em Jornalismo ambiental, em Berlim. Depois, conta, “comecei a me aprimorar em outras mídias, para ampliar as coberturas: no Vaticano, fiz minha primeira matéria de TV, comecei a entrar no rádio e, mais recentemente, na internet”. Cobriu a guerra entre Israel e o Hezbollah, em 2006, a tragédia do furacão Katrina, em New Orleans, o terremoto no Peru, em 2007, o Haiti, duas vezes acompanhando as forças de paz da ONU, a posse de Obana e a crise de Honduras em 2009. “Acho que o jornalismo multimídia é uma oportunidade para atingir o maior número de leitores/telespectadores/ouvintes/internautas.”


Como conseguiste entrar na embaixada? Alguma negociação prévia? Precisou dar gorjeta para alguém?
Entrar na embaixada era o grande trunfo da cobertura em Honduras. Eu já estava lá há mais de uma semana, e achava que seria impossível: as barreiras militares mantinham-nos a uma distância mínima de 400 metros do prédio. Havia cerca de 15 jornalistas brasileiros em Tegucigalpa. Em grupo, fizemos uma entrevista com o presidente Roberto Micheletti, na qual pedimos a ele autorização para entrar na área de segurança. Não funcionou. Fomos à chancelaria, também não adiantou. Quando achava que não conseguiria mais, consegui o contato de um político bastante influente, ligado a um partido que apoiou o golpe. Convenci a fonte de que Manuel Zelaya fazia o que queria dentro da embaixada, e isso precisava ser mostrado aos brasileiros. Eles intercedeu junto ao comando do exército, que me autorizou a entrar. Aproveitei o momento da troca do responsável pela embaixada. Entrei na barreira militar junto com o Francisco Catunda, ministro conselheiro. Quando eu estava na frente da embaixada, os policiais vieram correndo e gritando, dizendo que eu não estava autorizado a estar ali. Mas aí o portão do prédio foi aberto. E eu pulei pra dentro. Uma vez na embaixada, não tinham mais como me pegar.

Teve colega que ficou com ciúme? A Globo usou teu material feito para a RBS?
Por incrível que pareça, acho que o ciúme veio mais de quem já estava lá dentro. Até que eu fosse aceito pelo grupo de jornalistas que estava lá (AP, AFP, Reuters, Folha de S. Paulo e Telesul) , demorou um pouco. A primeira noite, dormi no chão da cozinha, sobre um papelão, enquanto os outros colegas tinham colchões de ar e uma certa estrutura que foram organizando com o tempo. Levei apenas duas cuecas e duas camisetas, o suficiente para aguentar lá dentro alguns dias. Quando cheguei, os colegas me encheram de perguntas: se havia levado comida, colchão, cigarro pra trocar por serviços, como lavagem de roupa, que era feita pelos ativistas. Eu não havia levado nada, mas também não estava pedindo favores. Por mim, poderia dormir na cozinha o resto dos dias. Estava lá para trabalhar, não para ter luxo. Encarei as perguntas como uma tentativa de me desestabilizar psicologicamente logo na chegada. Incomoda um pouco o fato de ter um novo jornalista no local. A Rede Globo usou com exclusividade o material que eu enviei. Foi ao ar no Jornal Nacional, com as primeiras imagens feitas por um repórter brasileiro de dentro da embaixada. Três dias depois da minha entrada, o repórter da Globo lá, o José Roberto Burnier, entrou, mas seguiu o acordo de ficar apenas uma hora lá dentro e saiu.

Teve alguma outra cobertura mais perigosa, que sentisse mais medo, ameaças, tensão?
Honduras foi uma cobertura que exigiu muito física e psicologicamente: barreiras policiais, censura, manifestações, toque de recolher, gás lacrimogêneo, estado de sítio e, por fim, o isolamento na embaixada. Mas em 2006 estive na guerra entre Israel e o Hezbollah, que considero a cobertura mais difícil, sobretudo porque o risco era maior. Em certa ocasião, testemunhei uma batalha no norte de Israel e fiquei no meio do fogo cruzado dos tanques israelenses e dos foguetes Katisusha do Hezbollah. No Líbano, havia o risco de ser sequestrado pela milícia, quando entrei no bairro de Dahie, em Beirute, dentro do carro da guerrilha. Também tive a oportunidade de cobrir pela RBS a tragédia em New Orleans, após o furacão Katrina. Também foi difícil, porque aluguei um carro e dormi duas noites dentro dele, na zona de desastre. Sozinho. E não posso deixar de citar aquela que foi mais emocionante cobertura: a morte do papa João Paulo II, no Vaticano, em 2005.

Matéria na íntegra na revista Press & Advertising


 
Marco Schuster
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