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Marcos Santuário

De Caxias para o mundo globalizado


Ser agitadinho já quando criança, extrovertido quando pré-adolescente e comunicativo na fase seguinte podem ser indícios importantes de um Comunicador Social em desenvolvimento. Ou não! No final dos anos 60, do século passado, os movimentos de uma Caxias do Sul em crescimento serviram de contorno para a formação do meu olhar sobre os círculos mais próximos que foram forjando minha personalidade.
Nascido no ano da revolução vi a luz naquele 1964, enquanto meu pai vivia intensamente os movimentos sindicais da época. “Seu Emílio”, como era chamado pelos amigos, comunicativo e trabalhador, viveu ao lado da “Dona Tereza”, mãe dedicada e dona de casa esforçada. Os dois viveram uma relação de 35 anos de casamento. Os problemas e a convivência nem sempre foram fáceis, mas foi só a morte que os separou definitivamente... Ou não! Minhas quatro irmãs e meu irmão participaram da construção do substrato familiar necessário de proteção, carinho e aceitação, claro que com todas aquelas situações de desentendimentos fraternos.

Na escola sempre fui atento e estudioso. Nunca brilhante. Esforçado. De nota oito para nove e meio. Dez só nos esportes. Do futebol ao vôlei, passando pelo videogame e pelo jogo de tacos. Enquanto o Iotti ficava sentado vendo os colegas se movimentarem de um lado pro outro. Anos depois entendi aquele olhar observador e semente da criatividade atual do chargista consagrado. A socialização das brincadeiras de rua sempre povoaram meu dia a dia. Ainda bem. Me fizeram viver sempre em sociedade. Na entrada da faculdade, a escolha foi fácil: Comunicação Social. Pena que a UCS, naquele tempo, ainda não tinha o curso de Jornalismo. Fui estudar RRPP. Ainda bem. Virei colega do até hoje amigo Sérgio Stock, com quem compartilhei o estúdio da TV Record RS no ano passado, apresentando um bloco de atrações culturais, no telejornal que o Sérgio ancorou com talento e competência.

Na faculdade fiz um ano de estudos básicos. Foi quando comecei a descobrir que o mundo era maior do que as fronteiras da cidade, e que o universo ia mais além da capital gaúcha. A partir de uma colega de aula, equatoriana casada com um caxiense, soube de um movimento cultural latino-americano que cantava e vivia o ideal de integração latino-americano, ressaltando os valores humanos. Gostei. Conheci o Elenco Latino-Americano Viva la Gente, sem vínculos políticos ou religiosos. O grupo viajava pelo continente, fazendo shows e convivendo com os cidadãos em cada país. Não tive dúvida, deixei o emprego promissor de Programador e Controlador de Produção na Marcopolo; vendi meu doginho amarelo e fui aceito com meu violão, minhas aulas de solfejo vividas no Ateliê de Música na Universidade, e meu desejo de conhecer um mundo novo.

Decidi ficar um ano fora do país. Acabei ficando oito. Foram milhares de pessoas conhecidas, centenas de cidades percorridas, inúmeras experiências vividas. E uma aula de vida em espanhol. Momentos que ajudaram a construir uma visão continental em um mundo em processo de globalização. Também me aproximei ainda mais do jornalismo. Escrevi para jornais, fiz programas em rádio e encarei as câmaras de vários canais de televisão. Fui membro do conselho editorial da revista Vida & Gente, com distribuição continental e com o olhar atento da jornalista Jeanette Ibargoyen, generosa e talentosa, coordenando os trabalhos. Com a revista tive a experiência de ser detido na fronteira do Brasil com o Paraguai, levado para interrogatório em Assunção e liberado minutos antes de um show na capital do país então governado pelo general Alfredo Stroessner.

Anualmente voltava ao Brasil, para não perder o vínculo com a nação, o território e a identidade constituída. As viagens pelo continente latino-americano me levaram para o Uruguai e, a convite da Universidade Católica Damaso António Larrañaga, terminei lá meus estudos de Jornalismo. Hoje, vários ex-colegas estão espalhados pelo mundo, da Europa à Índia, passando por alguns países latino-americanos. Ali tive grandes lições de jornalismo, com profissionais e professores vindos de várias partes do mundo, em uma época em que os corpos tinham que vir junto com as palavras, pois não tínhamos a vivência que se tem hoje de socializar conhecimentos através do universo virtual. Nunca esqueço da palestra, no final dos anos 80, que lotou o auditório do jornal uruguaio El País, e trouxe novidades da Europa e dos EUA sobre uma tecnologia que nos permitiria, no futuro, uma comunicação de texto, som e imagem, em uma convergência midiática através de uma plataforma até então pouquíssimo conhecida: um tal de computador.

Matéria na integra na revista Press & Advertising


 
Julio Ribeiro
Jornalista
julioribeiro@terra.com.br
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