Papel carbono, mimeógrafo a álcool, composição a quente, telex, máquina de escrever, fita de máquina, rádio à válvula, telefone com disco. Jogue tudo fora.
O mundo mudou, tornou-se plano há dois anos. Mas deixou de ser plano de novo. Não tem duas pessoas recebendo informações do mesmo jeito. As diferenças voltaram, agora globalizadas. Acabou a homogeneidade. Tem muito mais gente produzindo informações. Muito mais gente consumindo.
Jogue fora seus manuais de editor de textos, de sistema operacional, de editores gráficos. Estão superados. Nem faça planos para o ano novo, porque o ano vai ficar velho cedo: doze meses é muito tempo para um ano. Seria melhor reduzir para seis meses. E nomear os anos à moda informática. 2010.1, 2010.2. O número depois do ponto indicaria o semestre. Mas faça planos, nem que seja para jogar fora. O importante é jogar alguma coisa fora. Que jogar a preguiça no lixo? Joga, mas guarda um pouquinho. Ócio faz bem pra saúde.
Telégrafo, letra-set, tipos móveis. Fora! Têm coisas que a gente nem lembra mais, de tão rápidas que desapareceram. Entre a invenção do CD (também tá entrando na fila) e do DVD, existiu o disk-laser. Um discão grande, do tamanho dos LPs de vinil, mas prateado. Era o “CD de imagem”, a laser. Outro exemplo, fita cassete de vídeo Betamax. Computador 286, 386, 486, Pentium. Disquetes de três polegadas e meia, arquivos dat, zip drive. No fim das contas, tem mais “novas tecnologias” para se jogar que “antigas”. O vinil tornou-se popular de novo. Não jogue seu toca-discos, aquele com braço e agulha, que a gente escolhe a rotação, fora.
Até agenda eletrônica tá se jogando fora. Nem a pochete escapou. Pô a pochete era coisa muito útil. Facilitava a vida. Antes da pochete existiu a “leva-tudo”. Foi uma revolução do tempo que os homens começaram a usar bolsas, coisa de mulher até os anos 1970. A leva-tudo, que logo ganhou o apelido de perde tudo, era a bolsa dos “homens sérios”. Antes, se levava carteiras nos bolsos. Mas as carteiras foram inchando porque além de dinheiro portavam talões de cheques, cartões, documentos de identidade, motorista, carteiras de sócios de clubes e associações. E os punguistas, uns caras rápidos e habilidosos, roubam essas carteiras colocadas nos bolsos traseiros das calças e a gente nem notava. A leva-tudo carregava-se não, presa ao pulso por uma alcinha. A pochete foi o passo seguinte: presa na cintura, liberando as mãos, esvaziando os bolsos. Segura. Mandaram jogar a pochete fora. Voltamos a colocar carteiras nos bolsos. Talvez porque não existam mais ladrões habilidosos, ágeis e discretos.
Agora que toda inutilidade do momento foi pro lixo, olhe para o que sobrou. Algumas quinquilharias valiosas, mas só pra ti. A lembrança de um pescaria, uma foto meio desbotada, um brinquedo quebrado, um copo ganho num amigo secreto, uma poesia num guardanapo.
Quando terminar toda esta operação, a gente está pronto para juntar as mais novas inutilidades do futuro. É pra lá que a gente vai.
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