Página Inicial » Revista » Edição 123 » Arquivo Antológico
O maior incêndio que a cidade já viu

Já passava das duas da tarde quando o secretário de redação da Folha da Tarde, Edmundo Soares, olhou em direção ao centro da cidade e viu uma fumaça preta subindo. Chamou a repórter Ema Belmonte Reginato e disse: “Dona Ema, pega um fotógrafo e vá ver o que está acontecendo, acho que é na Otávio Rocha, na confeitaria Haiti”. Minutos depois ela liga: “Não é na Haiti, é um incêndio horrível na Renner. Manda mais gente para cá”.

O incêndio do edifício das Lojas Renner — no mesmo local onde está hoje, no centro, mas em novo prédio e com novos proprietários— foi uma das maiores tragédias de Porto Alegre. Estima-se em 41 mortos e 60 feridos.

Foi também razão de uma grande cobertura jornalística, um dos primeiros confrontos da pela liderança da audiência que travam Caldas Junior (agora Grupo Record) e RBS no Estado. Por causa dela caiu o departamento de notícias da rádio Guaíba meses depois.

Era 27 de abril de 1976, dia do aniversário da Folha da Tarde, um tablóide da Caldas Junior que tinha duas edições diárias. Uma que circulava pela manhã e outra, chamada Final, no meio da tarde. “Jair Soares era secretário da Saúde, e estava visitando a redação quando o Benito Giusti recebeu um telefonema, olhou pela janela e já pediu fotógrafos e carros. O Jair foi direto para o Palácio”, recorda Luiz Armin Schuch, na época redator da Folha, atualmente, editor de geral do Correio do Povo.

Jurema Josefa, que continua colega de redação de Ema Belmonte, agora no Correio, lembra que não havia o atual prédio da Caixa Econômica Federal na Praça da Alfândega, “por isso, ele viu a fumaça”. Em seguida, ela foi mandada para o local. “Às vezes me perguntam o que eu escrevi. Não me lembro, era só descritivo. Foi uma das piores coisas da minha vida.”

Ercy Torma, que agora preside a ARI (Associação Riograndense de Imprensa), era setorista de trabalho, previdência e saúde da editoria geral da Zero Hora. Fazia uma ronda diária de 15 entidades em média entre sindicatos e federações de trabalhadores. Estava indo da Borges para a Fundação Gaúcha do Trabalho, que ficava na Salgado Filho, quando cruzou a Dr. Flores e viu aquela aglomeração e fumaça lá embaixo. Desceu, lembra: “Mas quando estava chegando, me flagrei que na redação já deviam saber, deveria ter repórteres lá. Eu não acrescentaria nada. Decidi fazer algo diferente, fazer a periferia do incêndio”. Assim, rumou para a Annes Dias, desceu a Senhor dos Passos, foi até a Rodoviária, caminhou pela Júlio de Castilhos até a Borges, retomou a Salgado Filho até a Dr. Flores, entrando em lojas, bares, interrompendo conversas: “Onde tinha um grupo, eu entrava. Falava sobre o incêndio e ouvia os comentários. Só anotava alguns números. O mais difícil foi lembrar dos depoimentos”. Mas valeu a pena, quando retornou à redação, o chefe de reportagem Carlos Kolecza perguntou o que ele tinha. A matéria abriu a cobertura de 13 páginas (22 a 35) que o jornal deu no dia seguinte (além das páginas 2 e 3 e capa) e o título foi do próprio Ercy, em caixa alta: “POUCAS VEZES A CIDADE VIVEU UM CLIMA COMO ESSE, DE PÂNICO E HISTERIA COLETIVA”.

Hoje, Marco Túlio de Rose é advogado. Mas era repórter em 1976 e ia a uma loja que havia na rua Júlio de Castilhos: “Ia fazer aquela matéria pela terceira vez. Não aguentava mais aquela pauta. Aí, cruzo a Dr. Flores e vejo aquela fumaça preta. Subi. Cheguei lá no momento em que a irmã do jogador Everaldo cai estatelada na marquise e um outro fica degolado na janela. Fui num orelhão e liguei para o Benito Giusti ”.
O fotógrafo Paulo Dias estava escalado para o treino do Grêmio pela Caldas Júnior. “Naquele tempo, saía uma Kombi e ia largando fotógrafos e repórteres nos locais das reportagens. Não me lembro quem desceu no centro, mas a gente estava na Júlio de Castilhos quando viu aquela fumaça na Dr. Flores. Eu disse "eu vou lá"”.

Pela Zero Hora, o fotógrafo Carlos Rodrigues também iria ao treino do Grêmio. Mas o rádio estava ligado. “Ouvimos a notícia e fui direto para lá”.

A BATALHA DO RÁDIO

Quem chefiava o jornalismo e o esporte da rádio Gaúcha era Carlos Bastos. Ele não lembra como a notícia chegou na emissora, imagina que alguém telefonou. A Gaúcha tinha jornalismo, mas não com a abundância atual. Eram quatro repórteres para o esporte e apenas o editor Tairo Arrial no jornalismo, que redigia os noticiários da emissora.

A estrutura da concorrente Guaíba era superior, embora nada impressionante para os dias de hoje. Quatro repórteres: um no aeroporto, um de economia, um cobrindo Assembleia e governo do Estado e outro na Prefeitura. Eles recolhiam as informações, retornavam à redação para redigir suas matérias. Ou enviavam por telefone. Além das edições do Correspondente Renner, havia um noticiário de cinco minutos a cada hora. Fatos extraordinários justificavam uma edição extra do Correspondente Renner. Apesar de tudo isso, a Guaíba não saiu do padrão.

Matéria na íntegra na revista Press & Advertising


 
Marco Schuster
Editor
marcoschuster@terra.com.br
|ANTERIORES
Manchete, a TV de primeira classe
O mais poderoso jornalista gaúcho
Ary dos Santos, o criador da Maior e Melhor
O maior incêndio que a cidade já viu
|TODOS PUBLICADOS
|LEIA TAMBÉM
Entrevista:
Dado Schneider
Vida de Criativo:
Cláudia Tajes
Vida de Repórter:
Paulo McCoy Lava

 


REVISTA PRESS ADVERTISING
EXPEDIENTE | ANUNCIE | FALE CONOSCO