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Antonio Carlos Trommer de Resende

Por Julio Ribeiro e Marco Antonio Schuster
Fotos: Itamar Aguiar


Heleno de Freitas encanta Antônio Carlos Resende. Heleno foi um craque do Botafogo, da seleção brasileira, do Boca Juniors, Santos, Flamengo, Fluminense e América. Foi mais. Advogado, boêmio, brigão. Ganhou o apelido de Gilda pelos companheiros cariocas do “Clube dos Cafajestes”. Tudo por causa do famoso filme de Rita Hayword. Em 2006, ganhou uma biografia cujo título é “Nunca Houve um Homem como Heleno", do jornalista Marcos Eduardo Neves. Heleno Montenegro é o personagem do último livro de Antônio Carlos Resende, “Roubai-vos uns aos outros”, um jogador compulsivo, endividado, vendo os amigos adoecerem física e mentalmente, abandonado pela mulher, pouco apreciado pelo filho. Nem por isso amargurado. Heleno é feliz no jogo.
Antônio Carlos Resende também. Este é o mais autobiográfico dos seus 12 livros. O primeiro foi “Magra, mas não muito, as pernas sólidas, morena...”, escrito depois que teve um infarto causado pela tensão de dirigir a TVE. Antes disso, ele foi narrador de futebol, locutor de notícias, nas rádios Gaúcha, Guaíba, Nacional. Mas o início de tudo foi no serviço de alto-falantes que Oscar Chaves Garcia, pai do Alexandre Garcia, gerenciava em Cachoeira do Sul. Tinha 15 anos, nasceu em 27 de abril de 1929, estava terminando a Segunda Guerra Mundial.

Em 1946 concluiu o ginásio e foi estudar o segundo grau em Porto Alegre. Fez teste na rádio Farroupilha, recomendado a Delmar Farias por Dinarte Armando, radialista rio-grandino morando em Cachoeira do Sul. Fez algum tempo de experiência não remunerada e retornou à sua cidade, para trabalhar na Rádio Cachoeira, durante as férias escolares, como locutor comercial. No retorno às aulas em Porto Alegre, conseguiu ser contratado pela Farroupilha, ganhando 1.100 cruzeiros por mês. Naquele mesmo ano, 1949, foi convidado por Cândido Norberto para trabalhar na rádio Gaúcha, quando 400 cruzeiros a mais. Mas era só locução comercial.

Quando começou a narrar futebol?
No princípio de 50, eu pedi para o Cândido para transmitir futebol. Eu que na locução ganharia só aquilo, 1.500 cruzeiros. Então, eu comecei a trabalhar com o Guilherme Sibemberg, que já tinha saído da Farroupilha. Eu trabalhava com o Ernani Behs, com o Walter Ferreira, que era diretor de rádio-teatro e locutor, como Manoel Luiz e José Teodoro de Souza Lobo, que foi um dos primeiros locutores de turfe. Depois é que veio o Luís Macedo, para transmitir futebol. Aliás, o Luís Macedo começou na Rádio Gaúcha, e era diretor da MPM e a Rádio Guaíba era patrocinada pela Ipiranga, que era vinculada à MPM. Então, lá no Hipódromo do Cristal , em 1959, o Luís Macedo foi convidado, aliás foi quase imposto pela Ipiranga para transmitir, pela Guaíba, o Grande Prêmio do Hipódromo do Cristal. Ficamos sem o Luis Macedo, mas o Ari dos Santos, que era chefe do Esporte, deu um belíssimo golpe: convocou, no Rio de Janeiro, não sei se pagou ou não pagou, o Teófilo D. Vasconcelos, que era o maior locutor de turfe de todos os tempos. Ele veio do Hipódromo da Gávea para cá para trabalhar pra nós. Então, foi um golpe de publicidade para não perder para a Guaíba, na época.

Bom, então eu comecei a irradiar futebol em 50, com 21 anos. Naquele tempo, se trabalhava em diagonal, ora com o Guilherme Sibemberg, ora com o Cândido Norberto, ora com o Mendes Ribeiro, que estava recém começando.

Por qual time tu torcias?
Eu torcia e torço pelo Grêmio, mas na narração era isento, imparcial. Fui transmitindo futebol esse tempo todo. Aí, veio a Copa do Mundo de 58, que a Guaíba foi com o Mendes Ribeiro e o Homero Simom, que conseguiu o circuito SSB e foi o melhor som do Brasil. E a Gaúcha sempre na retranca, sempre sem dinheiro, foi junto com a rádio Nacional. O Sibemberg foi como comentarista de Jorge Cury e Antônio Cordeiro. A Guaíba cresceu no esporte, tinha 50 quilowatts e a Gaúcha tinha 5 quilowatts na antena. Só dava Mendes Ribeiro, que fazia fantasiava e tal. Até que chegou o rádio de pilha, e descobriram que ele era fantasioso demais. Eu era rival dele, pelo menos eu era titular da Guaíba e eu da Gaúcha, mas não sei se alguém dava preferência mas eram 50 quilowatts contra cinco. A Gaúcha tinha um som muito ruim mesmo.

Medir audiência era difícil?
Era muito difícil. Nós perdíamos na audiência. Aí o Ari dos Santos inventou a tal de “Maior e Melhor”. Maior equipe porque a Gaúcha tinha mais repórteres, mais locutores, não sei se era a melhor, para dar combate à Guaíba em transmissão esportiva. Em 65 eu saí da Gaúcha, fui para a Difusora, onde fiquei nove meses. Saí da Difusora e fui para a Guaíba trabalhar com o Pedro Pereira, que tinha herdado toda a audiência do Mendes Ribeiro, que resolveu transferir-se para a Gaúcha. Aliás, quando eu soube que ele ia para a Gaúcha eu saí e fui para a Difusora. Não me dava com ele direito.

Era uma desavença pessoal?
Inclusive de desforço pessoal.

Qual o motivo?
Não vou ficar falando disso. Ele era chefe do departamento de notícia e o cara chegava um minuto atrasado e ele cortava o dia. Eu não gostava do caráter dele. Mas como radialista foi um cara interessante, bom improviso, embora superficial. Foi o único escritor do Rio Grande do Sul que escreveu um livro sem nunca ter lido um livro. A frase não é minha, é do Cândido Norberto. Mas era inteligente, tinha facilidade de expressão, etc. Então, fiquei na Guaíba, junto com o Pedro Pereira, fomos à Copa do Mundo de 1966, demos um baile na Gaúcha.

O Pedro Pereira tinha um estilo diferente do Mendes Ribeiro, era mais direto?
Mas era o mesmo tom de voz, agudo, mais rápido, mais ligeiro. Eu, que era de voz mais grave, irradiava mais lento. Mas com precisão. Não é possível numa partida de futebol dar-se a velocidade que se dava na época. Mas eu para não ficar pra trás, e perdendo a minha personalidade, comecei a irradiar depressa também. Tinha facilidade porque eu ia do grave ao agudo. Mas para isso eu fazia exercícios. Eu comecei a ficar rouco porque mudei de voz. A gente para irradiar mais depressa tem que agudizar a voz. Eu fiz uns exercícios com um professor chileno, Enriques, e naquele dó-ré-mi do piano, pensei: taí o negócio. Eu começo no agudo, vou no grave, depois desço e tal. Eu tinha uma voz boa naquela época. Você nem sabe como era a voz do locutor de rádio na época. Fiquei na Guaíba até o final de 68, quando eu e o Ruy Carlos Ostermann fomos para a Gaúcha.

Trabalhamos aquele ano e 69, aí o Maurício Sobrinho fechou o esporte e eu fiquei desempregado. O Ruy voltou para a Guaíba, mas eu tinha saído de lá com uma certa briga com o Breno Caldas, porque quando eu saí da Guaíba e reingressei na Gaúcha eu disse “bom, agora eu estou de volta na Gaúcha, de onde eu jamais deveria ter saído”. Caiu a Caldas Júnior e acharam que era uma ofensa, não era um ofensa. Eu não podia ter emprego em Porto Alegre: havia duas rádios só para trabalhar: Gaúcha e Guaíba. Eu fiquei desempregado. Aliás, eu já era funcionário do Juizado de Menores, era Relações Públicas. Podia ficar ali, mas meu sonho era trabalhar na Rádio Nacional, então pedi para o Carlos Felberg, que era chefe de imprensa do Presidente da República da época, General Emílio Médici, para arranjar um lugar na Rádio Nacional. Mas eu precisa de um salário X, que eu ia com a minha mulher que era funcionária do Tribunal de Contas. Aí, eu fui também para a Agência Nacional: 3.500 cruzeiros, 1.800 só da Rádio Nacional. O Jorge Cury, um dos maiores nomes do rádio esportivo brasileiro, ganhava 1.500. Foi o maior escândalo. Deram um aumento para o Jorge Cury. Os caras ganhavam mal, ganhavam pouco na Rádio Nacional.

Entrevista na íntegra na revista Press & Advertising


 
Julio Ribeiro
Jornalista
julioribeiro@terra.com.br
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