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Juremir Machado da Silva

Eu me considero um “Mister M”



Por Julio Ribeiro e Marco Antonio Schuster
Fotos: Itamar Aguiar


Um sujeito contraditório, não confiável, mas que não trai os amigos, destruidor de mitos, menos os que lhe interessam. Esse é o nosso entrevistado, Juremir Machado da Silva, segundo ele mesmo.
Nasceu dia 29 de janeiro de 1962, em Santana do Livramento, e foi lá mesmo que começou a fama de polemista, provocador, guerrilheiro, invejoso, brilhante, o adjetivo varia conforme o analista. O primeiro oponente foi o irmão mais velho, Laudes, “de quem gosto muito”, garante. São sete irmãos, Juremir é o segundo filho. Ambos frequentavam em Palomas, distrito de Livramento, a Escola Rural Rodolfo Costa, no tempo da enturmação: alunos da primeira à quinta série ficavam na mesma sala. Juremir na segunda, disputava até a tabuada com Laudes e “quando eu percebi que ele era gremista, imediatamente me declarei colorado”.
A primeira rebelião extrafamiliar foi na mesma sala, aos 7 anos. Em 1969, havia muitas “horas cívicas” nas escolas. Os alunos reuniam-se em torno da bandeira e cantavam o Hino Nacional. Olha o que ele fez: “Eu disse que não íamos cantar o Hino. A professora ficou impressionada, ‘por que não cantar o Hino?’, porque não. Mobilizei a gurizadinha ali, saímos todos correndo. Parei atrás da porta. O castigo era colocar atrás da porta. Fiquei marcado por essa punição atrás da porta”.
Foi ainda em Livramento que conheceu a cultura francesa e a França. Seu pai, Vito Pires da Silva, era brigadiano aposentado, mas gostava mesmo de trabalhar na terra. E sempre conseguia algum trabalho em fazendas. Uma delas foi uma chácara de um advogado da cidades, Concesso Cassales, tão apaixonado por livros que precisou montar na chácara um biblioteca por falta de espaço na casa da cidade. O acordo era o seguinte: Vito tinha que cuidar dos livros e, se sobrasse tempo, faria o que bem entendesse na terra. Juremir não precisava plantar nada, e estava pelos seus 12, 13 anos. Eram milhares de livros: Balzac, Proust, Stendhal, Flaubert. Leu tudo e decidiu que seu futuro seria escrever, ler e ter opinião.
Ele escreve todos os dias, menos quartas-feiras, quando Élio Gaspari ocupa o espaço, no Correio do Povo. Fala de segunda a sexta na Rádio Guaíba, no programa de Rogério Mendelski, e duas vezes por semana nos debates esportivos do Terceiro Tempo.
Além disso, dá aulas na Famecos (Faculdade dos Meios de Comunicação Social da PUC-RS), traduz e escreve obras de ficção e não ficção. Sua última obra, Solo, de 2008, quase não mereceu comentários. Outros livros foram Getúlio (2004), A Miséria do Jornalismo Brasileiro (2000), Cai a noite sobre Palomas (1995).

Essa contrariedade com o senso comum não é também uma forma de aparecer?


Sim, é uma forma de chamar a atenção. Mas não é uma forma calculada. É instintivo. Aos poucos fui tomando consciência disso. Durante muito tempo eu fui chamado de polemista, e isso me incomodava, porque eu conheço, e vocês conhecem, as malandragens do nosso meio. Nós somos instados, estimulados a fazer polêmica.

Dá problema?


Claro, o sujeito vira um criador de caso, e as empresas têm medo. Elas querem a polêmica, mas quando vem a polêmica e alguém reclama, elas se retraem.

Uma polêmica sob controle?


Elas querem uma polêmica que não existe, que é sem mortos nem feridos. Não tem polêmica sem feridos. Quem entre em polêmica sabe que vai se ferir e vai ferir. E entre ser ferido e ferir, é melhor ferir. O sujeito que vai para a linha de frente quer de alguma maneira ser reconhecido, quer aparecer.

Mas sabe que não vai ser amado por todos?


Aí, trata-se de personalidade, e esse é meu traço de personalidade. Claro que eu quero ser amado por todos, como todo mundo, mas o comportamento polêmico em mim é mais forte que o desejo de ser amado.

Quando vê, já chutou o balde?


Exatamente. Eu aprendi a me controlar, agir de uma determinada maneira, a tirar melhor proveito disso. Mas é um controle, é um mantra “eu vou me controlar, eu vou me controlar”

Na Record você tem exercido muito esse mantra? Na RBS não exerceu.


Na RBS, não. Eu era muito mais jovem, não tinha uma certa experiência, uma certa malandragem, acho que hoje eu seria mais sinuoso. Mas ainda assim, de vez em quando eu... Por exemplo, na Rádio Guaíba, eu polemizei com várias pessoas num dia só. Tive uma discussão forte com Nestor Heinz, que é meu amigo, mas foi numa boa, e depois com o João de Almeida Neto, que não foi nada delicada, foi um dia em que eu fui longe. A minha crítica simplesmente foi dizer “não admito em qualquer clube de futebol manifestações de racismo”, e imitar macaco, para mim, é manifestação de racismo. Agora estou dizendo isso de uma maneira comedida. Na hora isso virou torcida racista, fascista, nazista e, claro, o João Almeida Neto e os torcedores gremistas puxaram um pouco dizendo que eu estava acusando o Grêmio e toda a torcida do Grêmio de ser racista, o que obviamente eu não acho. Mas essa coisa de imitar macaco se repetiu no jogo contra o Cruzeiro, mas isso não atinge o Grêmio como instituição nem toda a torcida do Grêmio. Isso é um exemplo: num dia só, duas polêmicas.

Nesses dias você não chega no final do dia dizendo “cansei”? Não dá vontade de mudar?


Claro que dá. Cansa porque é desgastante. Esse cansaço se dá num final de dia, como se dá com qualquer pessoa que trabalhou demais. Mas ele não dura mais de 48 horas.

No outro dia já está afiado de novo?


O meu espírito, na linguagem acadêmica, é o da desconstrução. Os filósofos e sociólogos que admiro, normalmente esses pós-modernos, trabalham com a ideia de desconstrução. A minha coisa é descobrir o mito e desmontar o mito. É disso que eu gosto, em qualquer coisa. Uma imagem que eu tenho usado, bem rasteira, eu me considero um “mister M”. O negócio é dizer: “É tu”, “eu vi”. Eu fiz jornalismo, mas também fiz doutorado em sociologia.

Entrevista na íntegra na revista Press & Advertising


 
Marco Schuster
Editor
marcoschuster@terra.com.br
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Entrevista:
Pedro Bertelle
Vida de Criativo:
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