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Dom Dadeus Grings

Por: Julio Ribeiro e Marco Antonio Schuster
Fotos: Jefferson Guntzel

Era para ser Tadeu Grings, sugestão de um padre missionário que passou pela Linha Imperial, município de Nova Petrópolis, em 1936, ao casal José e Maria Margarida Büttenbender Grings. Ela estava grávida do quinto filho.

Ninguém tinha aquele nome na região, homenagem ao apóstolo Judas Tadeu, e quem o registrou — o nascimento foi no dia 7 de setembro daquele ano — atrapalhou-se e escreveu Dadeus. Detalhe só descoberto aos 18 anos, quando Dadeus precisou da certidão para transferir-se do Seminário Menor São José de Gravataí para o colégio Pio Brasileiro, em Roma, onde concluiu sua formação para o sacerdócio católico.

Formado em Filosofia, Teologia e Direito Canônico, Dom Dadeus é sacerdote desde 23 de dezembro de 1961. Retornou ao Brasil em 1964, trabalhando na Paróquia de São Geraldo (P. Alegre), Viamão, manteve colunas sobre religião no Diário de Notícias, no Correio Riograndense de Caxias do Sul e escreveu artigos para revistas teológicas. Em 1973, publicou o primeiro de seus 26 livros.
Em 1981, foi transferido para a Secretaria de Estado do Vaticano, por indicação do então cardeal Vicente Scherer. Nesse cargo, viajou para Rússia e China.

Voltou a Porto Alegre em 1986, como pároco da Paróquia São João Vianney, Viamão.

Foi ordenado bispo em 1991 e assumiu como terceiro Bispo de São João da Boa Vista (São Paulo). Em abril de 2000, retornou à capital gaúcha, como Arcebispo Coadjutor da Arquidiocese, e no mesmo ano foi eleito presidente da Regional 3 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Assumiu a Arquidiocese em 7 de fevereiro de 2001, com a renúncia de Dom Altamiro Rossato, por limite de idade.

Dom Dadeus Grings, o arcebispo de Porto Alegre, apontado como integrante da ala moderada, concedeu a entrevista a seguir em sua sala simples na Cúria Metropolitana, ornada com seus diplomas em latim nas paredes e imagens de papas. Contou que sua avó rezava todos os dias para que um filho fosse padre. Não teve nenhum, em compensação, entre netos e bisnetos teve nove. Um era o irmão mais velho de D. Dadeus, falecido em novembro de 2008. Dois são bispos. O outro é Dom Carmo João Rhoden, bispo de Taubaté (SP) e primo em segundo grau.

O senhor acha que esta questão familiar acaba levando para a vida religiosa?
As vocações surgem do lar. Antigamente, surgiam da família. As famílias participavam das atividades religiosas e surgiam dois ou três com vocação. Uma família de vida muito religiosa mais facilmente leva para o sacerdócio. O meu irmão mais velho já estava no seminário quando eu nasci. Era 15 anos mais velho.

A colonização alemã no Rio Grande do Sul tem uma tendência luterana. Mas a sua família era católica?
Foi assim: até o Brasil ficar independente, só podia entrar português e escravo no Brasil. E a Igreja estava unida ao Estado. Então, só podia ser católico para entrar. Os africanos que vieram eram batizados. Quando o Brasil se tornou independente, em 1822, o D. Pedro I tinha uma visão muito aberta, achava que a escravatura era um atraso. Mas se dizia que o Brasil era inviável sem escravos. Ele quis mostrar que não era, que o Brasil poderia subsistir sem escravos. Então, ele tentou trazer mão-de-obra livre. A esposa dele, que era austríaca, Leopoldina, foi quem agenciou isso tudo. Quando o Brasil foi buscar esta mão-de-obra, disse “é só católico”. Na Alemanha não aceitaram isso. “Ou vão os dois ou não vai ninguém”. Aí vieram os luteranos. Com o compromisso, que cumpriram muito bem, de não fazer proselitismo. No início havia até algumas restrições, retiradas depois. Então, há regiões totalmente luteranas e totalmente católicas. Na Alemanha era assim. Lá, depois da Guerra dos 30 anos, quem determinou a religião dos súditos foi o governo, o príncipe. Tal príncipe, tal religião. Tal região, tal religião. A minha terra era mais luterana, mas na Linha Imperial (em Nova Petrópolis) eram só católicos. Dois Irmãos, só católicos. Estrela, Languiru, aquela região, só luteranos. Se fixaram aqui como estavam na Alemanha. Depois se misturaram. Nova Petrópolis era única sede de município, quando se emancipou, em 1955, que não tinha igreja católica, era na Linha Imperial.

Essa relação estreita entre Igreja e Estado se confundindo numa coisa só no tempo de reis criou algumas anomalias. O Brasil era um Estado católico. O senhor não acha que religião é uma coisa e Estado é outra?
A separação entre Igreja e Estado hoje é uma praxe em muitos países. Na Inglaterra, o rei decretou e foi chefe supremo da religião. Igreja unida ao Estado. Na Alemanha, o governo assumiu a Igreja Luterana. Os países nórdicos são oficialmente luteranos. Mas isso não é só no cristianismo. A República Islâmica do Irã, os aitolás dominaram.
(...)

Entrevista na íntegra na revista Press & Advertising


 
Julio Ribeiro
Jornalista
julioribeiro@terra.com.br
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