“A imprensa nunca questionou a Assembléia”
Por: Julio Ribeiro e Marco Antonio Schuster Fotos:Lucas Uebel
Alguns meses atrás, Giovani Antônio Grizotti se emocionou. Encontrou uma fita cassete dos tempos da adolescência em Barros Cassal. De um lado, estava a voz de Armindo Ranzolin narrando os gols do Grêmio no Mundial de Tóquio. Do outro, a voz de Giovani, simulando entrevistas para o RBS Cidade. “Eu colocava uma caixa no ombro e saía entrevistando as pessoas.” Mais ou menos na mesma época, ele apresentou a um professor o projeto de fazer um jornal da cidade. O professor olhou, mas achou que não estava muito bom e Giovani deixou o assunto de lado. Mais novo de três irmãos do casal Clemente (falecido há quatro anos) e Isena Grizotti, tinha que estudar e trabalhar. “Eu tinha uma coisa que não tenho mais, uma excelente memória. Não precisava estudar e sempre ia bem.” Era um líder de turma e organizou uma excursão de fim de ano a Foz do Iguaçu, onde comprou o gravador que registrou as fitas hoje históricas. O pai era um pequeno empreiteiro, os irmãos trabalhavam em instalações elétricas, hidráulicas e serviços semelhantes. Giovani fazia bicos como transportar malote do Correios, passar sinteko em assoalhos. “Comia pó e aspirava aquele cheiro forte.” Era preciso: “O pai tinha problemas de alcoolismo, a gente enfrentava muitos problemas naquela época, e ele meio que abandonou a profissão”. Coube aos filhos garantir a manutenção da casa. Quando Giovani terminou o segundo grau, aos 17 anos, o irmão mais velho recebeu convite para trabalhar em Capão Novo. Ele viajou, viu que dava certo e levou a família toda. “Na época em que Capão Novo estava no auge, era praia modelo, tinha festa do sol, atrações o verão todo. Eles continuaram no mesmo segmento e eu ajudava a fazer concreto, pintar casas, janelas, portas. Depois eles adquiriram uma fábrica de móveis, eu trabalhei nela, lixando móveis, no verão eu vendia milho verde na beira da praia.” Não, não era essa a comunicação que queria fazer: “Eu não gostava do que fazia. Criava calos nos pés e nas mãos mas eu fazia por necessidade, porque não tinha outra opção”. Quinze anos depois, Giovani é o reporter investigativo mais famoso do Estado e não pode ser fotogrado. Por isso, Lucas Uebel fez essas fotos dele de costas ou na contraluz. Giovani ganhou o principal premio ARI de reportagem de 2008. O início dessa trajetória foi quando decidiu escrever uma carta para o Jornal de Capão.
Quando você estreou na imprensa? Quando eu tinha 21 anos, um grupo de alunas de Relações Públicas da PUC realizou um projeto social em Capão Novo cujo objetivo era estimular o exercício da cidadania em pequenas comunidades. A gente não morava no centro, mas no núcleo São José, vila dos residentes fixos de Capão Novo. As alunas começaram a fazer com que os moradores cobrassem dos políticos seus direitos, esse tipo de coisa. Numa dessas, resolvi assistir à sessão da Câmara de Capão, para ver como os vereadores da minha cidade estavam se comportando. E nessa sessão, um deles, Delci Germano, do PDT, hoje falecido, chamou um outro vereador, Luís Gabriel, representante de Capão Novo, de cachorro raivoso. Eu achei aquilo absurdo, até o porque o Delci Germano estava bêbado na tribuna. Resolvi escrever uma carta para o espaço do leitor do Jornal de Capão manifestando a minha indignação com aquilo. Mas, seguindo aquele projeto de Barros Cassal, de fazer um jornal, quando entreguei a carta para o diretor pedi que ele analisasse a possibilidade de eu escrever uma coluna semanal, relatando os fatos de Capão Novo. A carta foi publicada e ele topou a idéia da coluna. Eu comecei com uma coluna pequena, um quarto de página.
Você já estreou brigando. Uma carta denunciando. Na semana seguinte fiquei em êxtase ao perceber que o vereador tinha lido a carta e me detonou na tribuna. Eu vi que repercutiu, atingi o meu alvo. E dessa coluna de um quarto de página passou para meia página, depois para uma página inteira, sempre sem remuneração. Isso aumentou meu vínculo com esse vereador que eu tinha defendido na carta, porque era de Capão Novo, a gente ficou amigo e por influência dele eu fundei a Juventude PTB... (gesticula) não sei como é que vocês vão reproduzir isso.
O passado te condena? O passado me condenaria se ao decidir pela atividade jornalística eu não tivesse aberto mão de minha filiação ao PTB quando fui convidado para trabalhar na rádio Horizonte, que era o meu maior sonho.
Com remuneração? Aquela remuneração de interior, bem tímida, mas dava para sobreviver. Eu era repórter policial num primeiro momento, e depois passei a fazer todo tipo de matéria. Reclamação de rua, esgoto, alagamento, enfim, geral. Era o único repórter da rádio. Lá pelas tantas, se aproximava o verão, surgiu um problema no posto de saúde 24 horas de Capão da Canoa, que também atendia os veranistas e aí eu tive a idéia de oferecer um boletim à Rádio Gaúcha no “Gaúcha Estação Verão”. Conversei com o Rogério Carbonera, que era produtor, falei que era importante e também atingia os veranistas. Eu já tinha aquela visão, assunto local não iria interessar para a Rádio Gaúcha, tinha que interessar os veranistas. Propus o boletim, primeiro ele achou que podia não valer e tal, mas pediu para eu gravar. Fiquei realizado: “Vou entrar no ar na Rádio Gaúcha”. Hoje eu não sei qual seria meu próximo sonho, mas naquela época eu trabalhava muito com a palavra sonho. Estava no Jornal de Capão queria ir para o Praia e Serra, que era maior. Aquilo era um sonho. Estava no Mar e Serra e queria ir para a Rádio Horizonte, aquilo era um sonho. Da Rádio Horizonte eu queria ir para a Rádio Gaúcha, aquilo era um sonho. Era uma questão simbólica.
Aí, gravou o boletim para a Rádio Gaúcha. Que entrou no ar... Aí se tornou uma praxe. Uma vez por semana eu entrava nesse programa com informações de Capão da Canoa e chegou o final daquele veraneio ficou combinado de eu continuar colaborando durante um ano.
Que ano foi isso? Foi em 1995. Quando chegou no final de 1995, o Luciano Klöckner, que era o chefe junto com o Cláudio Moretto, me convidou para fazer um frila. Eu ia ser o repórter da Gaúcha em Capão da Canoa. A minha expectativa, desde o dia que comecei este free, em janeiro de 1996, era que quando chegasse o último dia dessa cobertura, pela qual eu recebia cem reais por mês, receber um telefonema do Luciano Klöckner me convidando. E foi uma agonia até chegar esse último dia da cobertura. E aconteceu. Depois de gravar o meu último boletim para o Chamada Geral Segunda Edição, o produtor pediu para eu segurar na linha que o Luciano Klöckner queria falar comigo.
Aí, você já sabia o que era. O coração quase saltou pela boca.
Chegou a fazer um docinho, “tenho que consultar a família”? Imagina. Quem dera eu pudesse fazer um docinho. Hoje eu poderia até fazer um docinho, na época, não. O Luciano me convidava para vir a Porto Alegre sem saber muito se eu iria trabalhar na Gaúcha no na CBN, que estava começando. Mas o fato é que eu vim, superfeliz e realizado, e comecei a trabalhar como produtor do Rogério Mendelski e do Chamada Geral Segunda Edição. E como tinha uma vaga na reportagem durante a tarde, assumi também essa vaga. Eu morava numa pensão no centro de Porto Alegre, acordava às quatro e meia da manhã para pegar o ônibus e chegava às cinco e meia. E saía da rádio às sete, oito, nove da noite, dependendo do dia. Eu era workaholic mesmo. Lembro que um dia fiquei até tarde na pensão, antes de pegar o ônibus, chegou seis da manhã eu não tinha chegado na rádio ainda e o Mendelski me chamou pelo ar: “Onde está o Giovani Grizotti? Não chegou ainda”. Ele é uma pessoa maravilhosa. Ainda quando estava em Capão, eu fiz um boletim sobre um episódio com o mesmo vereador que havia criticado o colega de Capão Novo, o Delci Germano. Ele chegou a tal ponto de bebedeira nas sessões da Câmara que um outro colega dele propôs um teste do bafômetro nas sessões. O Mendelski comentou no ar. Naquele dia ele falou “temos um furo aqui no Gaúcha Hoje, o Giovani Grizotti está nos informando” e tal. E aquela notícia saiu até na CNN. Foi meu primeiro grande furo, internacional, via Rogério Mendelski.
Em Capão da Canoa você nunca teve problemas, pressões? Sim. Eu comecei a fazer esse tipo de matéria tida como investigativa lá. De todas as situações que enfrentei, aqui em Porto Alegre ou em Capão, a mais real mesmo aconteceu lá. Eu denunciei um policial de Xangri-Lá, que tinha um esquema envolvendo extorsão com multa de trânsito. O diretor da rádio de Capão recebeu um carta, que depois eu descobri que tinha sido redigida por um outro policial, onde ele descrevia o plano do colega para me assassinar. E nessa carta constava o meu roteiro para sair da rádio Horizonte e pegar o ônibus para Capão Novo. Só alguém que tivesse seguido meus passos saberia disso.
Aí você teve medo? Fiquei com um pouco de medo mas não tinha muito, naquela época, noção de perigo. Então, não levei muito a sério.
Essa vai ser a primeira entrevista da Press em que não vamos identificar o entrevistado. Você também se preserva de aparecer em público. Isso é cuidado ou chega a ser medo? O quanto isso lhe tolhe da vida pessoal? Eu vou citar um exemplo. Eu tenho uma grande paixão, além do jornalismo, que é a tradição gaúcha. Freqüentar CTG, ir a rodeios, tenho um blog no clicRBS e uma coluna no Diário Gaúcho chamados Roda de Chimarrão. Eu tenho uma amizade muito grande com o maior grupo de música regional que é Os Monarcas, com os quais eu viajei para os Estados Unidos há dois anos, fiz matéria para a RBS TV e tal. Quando o pessoal do grupo não sabia muito bem como era esse meu perfil de trabalhar, que não podia aparecer muito e tal, eles me convidavam para subir no palco e cantar com eles. Agora, entenderam e não convidam mais. Quando eu vou a baile no Paraná, eu canto.
Depois de duas guampas de canha? Não, eu canto direito, conheço todas as músicas dele.
Canta melhor que o Pedro Ernesto? Eu canto melhor que o Pedro Ernesto.
Vou colocar esta chamada numa página. Mas o Pedro reconhece isso. O Pedro sabe que até o Volmir Martins canta melhor que ele. Aqui, por exemplo, eu nunca fiz isso. E jamais vou fazer. É uma exposição muito grande. Às vezes, encontro dificuldade em relação a isso. Às vezes não tem como escapar. Agora teve o lançamento da cavalgada do mar, eu estava presente e o Romera, que era o comandante, me convidou para ir à frente onde estavam os demais integrantes do comando para formalizar a cerimônia. Ele não sabia, nunca disse para ele “não pode me fotografar, tal”. Fiquei ali no “que vou fazer?”. Se não for, vão me chamar de mascarado, se for, eu perco o controle sobre fotos. Em dezembro do ano passado, houve um momento, eu não digo de medo, mas que me deixou muito desconcertado. Estava fazendo uma matéria banal sobre venda de cheques roubados no centro. Informamos o Ministério Público, compramos uma folha e o cara queria nos levar até o escritório de um golpista parceiro dele que vendia Carteira de Identidade. Para que o cheque pudesse ser aceito na hora de fazer a compra no comércio. O cara me levou numa galeria da Borges de Medeiros, que eu nem sabia que existia, quase na esquina com a Salgado Filho, local escuro, bem sinistro. Batemos à porta, um cara abriu, a gente entrou, e ele ficou de costas pra nós, à frente do computador. Eu atrás dele, fazendo perguntas, e ele respondendo. “Pois é, a carteira é 70, mas se tu me deres 100 eu te consigo mais rápido”, sem olhar para o meu rosto. Daqui a pouco, ele se vira pra mim, e me olha. E no que me olha, olha para a parede do lado e ficou comparando. Eu digo, na minha cabeça, né?: “me fu...” Aí eu olho para a parede, isso é a primeira vez que estou contando, nunca me deixaram contar essa história, nem na matéria. Na parede tava uma foto minha. Mas tudo bem, não era uma foto que fosse tirada na rua, era uma foto do sistema de informações da Polícia. Só é possível imprimir aquela foto quem tem acesso ao sistema de informações da Polícia. Era uma foto ampliada, de tamanho ofício. A imagem é muito pesada, ver aquilo. E o cara ainda colocou um bigodinho, aquela coisa de sacanagem. Naquela hora eu não tive muita reação, e, talvez devido até a um pouco de nervosismo, acabei levando para o lado da brincadeira e falei “vem cá, parecido comigo esse cara da parede”. Ele olhou, perdeu o rebolado com a minha pergunta. Achou que eu ia sair correndo. Daí, “ah, pois é, pois é” e se virou para o computador. Daí peguei e joguei o retrato fora. Em vez de pegar, amassei e joguei no chão. O segundo golpista não sabia o que estava acontecendo. Ele não tinha entendido que eu era um repórter.
E o cara do computador? Me reconheceu. Quando olhou para a foto e olhou para mim, ele parou de falar. “Vamos fazer o negócio?”, “Não, não vai dar para fazer”. Aí, me caiu a ficha, “alguma coisa aconteceu”. Aí saí. Saiu em disparada? Não tem como ser diferente. O Fachel estava aqui, já ligou para o Fantástico, o Fantástico já queria fazer uma matéria “procura-se um repórter” e tal, e o entendimento aqui foi de que se a gente divulgasse poderia mostrar o caminho da roça para quem quisesse ver a foto. Isso teve duas conseqüências. A primeira foi que liguei para Francisco Mallmann, Secretário de Segurança, contando a história. O Mallmann mandou abrir inquérito. Toda vez que alguém acessa o sistema de informações da Polícia para obter dados, fica registrado o RG do policial que acessou. A resposta veio três dias depois. De janeiro a dezembro, 49 policiais tinham acessado. Da Polícia Federal, Brigada Militar, PGE e Polícia Rodoviária Federal. Envolvendo não só foto mas toda e qualquer informação que se encontra no sistema. (...)
Entrevista na íntegra na revista Press & Advertising
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Julio Ribeiro
Jornalista |
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