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Pedro Bial

O jornalista Pedro Bial nasceu no Rio de Janeiro, em 29 de março de 1958. Ali se formou em jornalismo em 1980, ali começou a trabalhar em cinema e depois televisão, na Globo. Foi correspondente internacional durante oito anos, desde 1989, e quando voltou tornou-se um dos apresentadores do Fantástico e do Espaço Aberto, na Globonews. Além do jornalismo, desenvolveu projetos paralelos, como cinema, com o filme Outras Estórias, livros-reportagem, Crônicas de Repórter e Leste Europeu, revolução ao vivo, co-autoria com sua primeira mulher, Renée Castelo Branco, baseados no tempo de correspondência.
O animador Pedro Bial "nasceu" no início de 2002, durante o Big Brother Brasil 1. Foi numa noite, depois de encerrada a transmissão ao vivo, quando gostou do que tinha feito e descobriu por que tinha acertado: "Esqueci o jornalista".
A partir dali, ele passou a separar integralmente o animador do jornalista, embora tenha aumentado o número de adversários, que consideram a nova trajetória apenas sintoma de decadência. Ele não concorda e assegura que não confunde os dois, nem o público, nem os entrevistados.
No Big Brother, quem compete são os confinados naquela casa, com torcida e participação do público. Mas quando se trata de fazer reportagens, quem compete são os jornalistas. E Bial acha fundamental competir. Lealmente, seriamente, francamente – mas competir.
Como fez Roberto Marinho, personagem de seu último livro. Marinho é o seu exemplo de indivíduo competitivo capaz de gerar empregos e riquezas. Uma conduta que está enraizada no império que criou a ponto de atingir os funcio-nários jornalistas.
É por apostar nela que Bial fica feliz com o lançamento de um novo telejornal no SBT, com Ana Paula Padrão.
Ele deu esta entrevista durante uma viagem a Porto Alegre para promover o livro que escreveu sobre Roberto Marinho e para participar de um talk show num shopping da cidade reafirmando essas idéias.
Mas nem só de competição vive o homem. Ele também fala de sua vida privada, da preocupação com a educação dos cinco filhos, o gosto pela poesia, jornalismo e alguns projetos para o futuro.



PA: Mal terminado o Big Brother, você estava na Polônia, para a cobertura da morte do Papa, e fez uma matéria especial do Jornal Nacional sobre Walesa e o Solidariedade. Como é que você consegue transitar entre essas duas coisas, sem se caracterizar como showman?
Pedro Bial: Minha formação foi de televisão. Virei jornalista já em televisão, eu digo que sou muito mais um bicho de TV do que um bicho de jornal, e em tele-visão aprendi a fazer um pouquinho em cada etapa. Comecei em produção e edi-ção, depois fui para a reportagem, nunca me afastei da edição, participei de algumas apresentações de programas não jornalísticos, como festivais de rock, de jazz e fui pegando cancha e intimidade com o veículo. Acho que aí se revelou uma ver-satilidade, talvez fosse um dom, mas que não estava desenvolvido. O Big Brother é um caso específico, porque já é o produto mais bem-sucedido da história da tele-visão no mundo e eu tive a felicidade, a sorte, ou a temeridade, de ter aceitado participar deste desafio, que era adaptar para a televisão brasileira esse formato concebido pelo holandês John de Mol. Eu não sei me explicar tão facilmente. Eu sei que faço com igual dedicação e entrega todas essas atividades. Talvez isso é o que fique marcado, que o sujeito faz com garra, faz com fé, com vontade e honestidade. Aí, mesmo quando erra, acerta.

PA: Apresentar o Big Brother influencia na sua vida particular de alguma maneira?
PB: Influenciou, porque o tipo de abor-dagem do público para com o jornalista é mais cerimonioso. O jornalista tem uma certa aura nobre. O apresentador de um programa cujo único compromisso é com a diversão e que se despe da condição de jornalista para ser simplesmente uma espécie de bobo da corte, de chacrinha, de parceiro do espectador para se relacionar com aqueles que estão confinados, não. As pessoas perderam a cerimônia comigo. Dizem "dá uma espiadinha" e tal. Às vezes há uma confusão, que é para uma es-piadinha no programa, não no apre-sentador.

PA: O beijo da Pink...
PB: Aí está dentro do programa. Dentro do programa, vale. Agora, fora do pro-grama, tem certo tipo de lugares e situ-ações que eu tenho que ir com cuidado pa-ra a coisa não fugir do controle. Não é por mim, mas é porque tenho filhos e gosto de sair com a minha família.

PA: No trabalho jornalístico, às vezes não acontece de o entrevistado fazer confusão sobre quem é o entrevistador, aquele "bobo da corte" do Big Brother ou o jornalista?
PB: Eu nunca confundo isso e não presenciei ninguém fazendo confusão. Depois de ter feito três Big Brother, fiz uma entrevista com o presidente Lula para o Fantástico com quase 50 minutos de duração, e o público viu ali um repórter entrevistando o presidente, e o presidente não viu ali o animador do Big Brother. Eu acho que estranhamente as pessoas fazem esta distinção. O senso comum concluiria que "o cara virou animador, não pode mais ser repórter". Não. Eu acho que uma vez que você está dentro de um formato, sobriamente cumprindo o formato, como é o caso da telerreportagem, que exige sobriedade do repórter, eu acho que não há como confundir com o outro brincalhão, meio palhaço, que apresenta o Big Brother. Pelo menos até hoje, felizmente esta confusão eu não presenciei.



PA: Não causa dificuldade esta guinada no teu trabalho, fazer uma coisa mais popular, com o Big Brother e o Fantástico?
PB: A minha trajetória profissional é um exemplo bem compreensível da lei do mercado. Eu comecei trabalhando em cinema, como assistente de câmara, assistente de direção, depois dirigi um curta-metragem, trabalhava montando na moviola, fui para a televisão a fim de trabalhar como editor e atrás das câmeras, mas porque tinha uma aparência que fotografava bem, tinha uma voz boa, me botaram para fazer reportagem, virei repórter. Aí, por conta de um convite do Walter Clark, que não estava na Globo havia alguns anos e estava começando uma TV local no Rio, a TV Corcovado, fui chamado para fazer um programa de auditório. Depois de seis anos de Globo, quatro fazendo Globo Repórter, me interessou a mudança e o desafio de ir para uma televisão pequena, comunitária, trabalhar com este mito que era o Walter Clark, e a contraproposta que o Armando Nogueira, que era o diretor de jornalismo na época, me fez foi: "Você não quer ser corres-pondente em Londres?". Quer dizer, eu acho que fui o único beneficiado da TV Cor-covado, que foi um fracasso, nem existe mais. Vivi oito anos em Londres como correspondente, oito anos em que aconteceram alguns dos fatos mais decisivos do século 20, e tive o privilégio de estar lá como testemunha e reportar esses eventos. Mas voltei para apresentar o Fantástico. Aquilo já me causou estranheza quando voltei. Não era uma época em que a Internet era tão parte do nosso dia-a-dia. Morando em Londres, em 1988, você ficava mais distante do Brasil do que hoje, quando se tem a própria Globo Internacional. Outro dia, voltando da Polônia, eu vi a decisão do campeonato carioca num pub londrino.
Quando eu voltei para o Brasil, me surpreendi vendo que o Pedro Bial é caricaturado no Casseta e Planeta como o repórter e gato. Caramba! Na maior parte das coberturas em que tomei parte era notícias trágicas ou terremotos, guerras, revoluções, morte, e o que se apreende na televisão é que o repórter é gato? A televisão é um veículo pouco dominado em termos do que ele provoca na cabeça das pessoas, na psicologia do teles-pectador. Eu senti esta estranheza quando eu vim apresentar o Fantástico. Eu falei: "Puxa, eu sou um correspondente inter-nacional tão bem formado, eu estudei mui-to, estudei política internacional, procurei me preparar bem para fazer aquele tra-balho, mas de repente a minha evolução profissional indicava, era quase que compulsório que eu fosse apresentar o Fantástico". O Evandro Carlos Andrade me telefonou meio que dizendo "não aceito não como resposta". E de fato tinha encerrado um ciclo na minha vida. Nesse momento, senti estranheza, quando vim para apresentar o Fantástico, que é uma fórmula muito arriscada, muito a cara do Brasil, de combinar jornalismo e entretenimento, não conheço programa semelhante em outro país no mundo.
Quando veio o Big Brother, precisava-se de alguém que soubesse conversar com as pessoas, que soubesse ficar ao vivo. E uma das grandes atrações da TV ao vivo é que é parecida com um circo: existe a presença do erro. O trapezista pode cair, o leão pode morder o domador, a Pink pode beijar a boca do apresentador, ou a mulher pode tirar a roupa. Na televisão, ao vivo, tudo pode acontecer. Então, eles preci-savam de alguém. Iniciou-se com uma dupla, eu e a Marisa Orth, Perceberam que não precisava dois, era demais.
Isso é lei do mercado, eu não escolhi. Eu fui escolhendo desafios que me eram propostos e eu aceitava ou não. É assim que a banda toca, eu acho, não tem grandes mistificações, não.

PA: O fato de você ser extrovertido não é a causa do sucesso do Big Brother?
PB: Acho que ajudei a construir. Mas o Boninho é um diretor de uma coragem, de uma audácia, que move a equipe toda de paixão. Houve visíveis saltos de qualidade na edição, e foi espetacular. Eu fui junto. No Big Brother 1, em que a gente estava procurando o formato, batendo cabeça, pegando o touro a unha, teve um dia em que eu falei: "Hoje eu fui bem, hoje a coisa deu certo". Por quê? Porque eu esqueci o jornalista. Fui só eu.

PA: O que você mais gostou de fazer?
PB: Como repórter eu tive muita sorte. O destino me reservou oito anos de correspondência em que aconteceu de tudo. Ali o mundo literalmente caiu. Era um e virou outro. Se for para destacar uma época de ouro da minha carreira como repórter, sem dúvida foi a correspondência. Como profissional de televisão, a apresentação e o malabarismo que é fazer um programa ao vivo. As pessoas não têm noção sobre a loucura que é atrás dos bastidores. Não há outra palavra. E você tem que estar lá, bola para o ponta-direita, volta, prende o jogo, faz embaixadinha. Então, me orgulho muito de ter conseguido dominar aquele formato.

PA: O que ainda falta, profissional-mente?
PB: Falta trabalhar mais, simples-mente. Estou trabalhando num novo livro sobre assuntos mais pessoais, uma ficção, não é um livro-reportagem, quero fazer algo sobre História do Brasil para a TV aberta. Estou com um projeto em anda-mento dentro da TV Globo, alguns projetos muito embrionários na área de audiovisual e na área fonográfica que ainda não posso antecipar. Enfim, vou continuar fazendo coisas que estou fazendo, é o meu trabalho. O que há em comum entre todas essas coisas é o texto. Tudo nasce do texto, de escrever. Cada coisa que a gente faz, antes tem uma palavra, e esta palavra quando escrita...

PA: Mas quando acontecem alguns fatos no mundo não dá vontade de estar lá?
PB: Não. Até contemplo a pos-sibilidade de no futuro voltar a morar no exterior e ser correspondente, mas nós temos um bom time de correspondentes espalhados no mundo. Está mudando bastante a natureza do trabalho do cor-respondente com a revolução digital e informática. Hoje você pode ter mais gente espalhada pelo mundo com câmeras digitais e transmitindo pelo computador. No meu tempo eram grandes escritórios, a cada lugar que nós íamos fazer a cobertura tínhamos que ir à emissora de TV local para fazer a transmissão via satélite. A tecnologia está ditando toda uma nova maneira de fazer correspon-dência. Então, eu acho que vivi o meu ciclo de oito anos e não tenho o menor descon-forto quando está acontecendo um grande fato internacional e não estou cobrindo. Quem está cobrindo está fazendo o seu trabalho direito e eu estou fazendo o meu trabalho direito. No caso dos três primeiros meses do ano, virou uma instituição do início do ano, o Big Brother Brasil, eu estou consagrado à causa da diversão e do entretenimento. Realmente, é difícil entrar na cabeça das pessoas um programa não ter outra pretensão que não seja divertir o espectador. O que vem como efeito colateral, vem, mas nosso objetivo é a pura diversão.

PA: Como funciona esta lei do mercado quando você tem que escrever sobre a instituição, o império do qual você faz parte?
PB: A primeira coisa que fiz foi ver que tinha um ser humano. Que este cara não era uma instituição. Roberto Marinho era um ser humano, carne e osso, acreditem. Este foi meu primeiro norte, humanizar este sujeito que virou instituição.

PA: Mas quem ler vai encontrar lados ruins de Roberto Marinho?
PB: É apresentado tudo. O que fez e deixou de fazer, de bom ou de ruim, sem julgamento de valor, esse julgamento de valor fica a critério do leitor. Eu vou des-cobrindo este personagem junto ao leitor. O que há é uma tentativa de pensamento dialético, no sentido de que uma afirmação que pode ser oposta a outra e não exclui nem elimina a afirmação anterior. Quando você começa a aceitar o paradoxo e pensar dialeticamente os contornos que formam a personalidade, você percebe que é um sujeito como todos nós, com suas con-tradições, suas qualidades e seus defeitos.
Eu acho que esse livro é um elogio do indivíduo como exemplo da força da iniciativa individual e da iniciativa privada. É muito importante neste momento, no Brasil, as pessoas refletirem sobre o ciclo de prosperidade que a iniciativa de um só indivíduo pode pôr em movimento. E isso me interessa extremamente e tem no Roberto Marinho um exemplo brilhante, é um homem milionário, já com um império aos 60 anos, que começa uma televisão. Empenha tudo, corre riscos políticos violentos, uma CPI incendiária por conta de sua associação com o grupo Time-Life a partir de mecanismos e artifícios legais que ele usou para se financiar com dinheiro do exterior. Empenha todos os seus bens. Por que um homem de 60 anos ainda quer fazer tanto? E um homem de 60 anos em 1965 não é um homem de 60 anos de 2005, que são uns brotos. Em 65, estava aposentado. Isso me interessa. Este tipo de empreendedor capitalista nos conta muito sobre a natureza humana e sobre a maneira da evolução das sociedades humanas e de criação de riqueza.
Na segunda semana em que o Big Brother holandês estava em cartaz, execrado, como em todos os lugares do mundo onde estreou, o John de Mol estava numa feira do mercado de Cannes e um executivo da Pearsons, então o maior grupo de entretenimento e editoração do mundo, lhe fez uma oferta de um bilhão de libras, três bilhões de dólares pelo programa. E do outro lado tinha uma fila com produtores de televisões de todo o mundo querendo comprar o formato. De um lado, 1 bilhão líquido e certo, e de outro lado o incerto e imponderável. O que fez o John de Mol? Disse: "Não tem jogo, não vou vender minha produtora". Partiu para o risco. Por quê? Além do gosto pelo risco, que é o que faz Roberto Marinho, tem a vontade de ver as coisas em movimento, de realizar as coisas e ver as coisas acontecerem. Isso, eu acho, é o motor da sociedade e da dinâmica entre indivíduo e coletivo.

PA: Em termos de fórmula, talvez a TV brasileira seja a melhor do mundo, e a Globo tem um papel preponderante em puxar este padrão para cima. Mas em termos de conteúdo nós não estamos devendo? A TV brasileira está cumprindo um papel libertário da população brasileira?
PB: Acho que a televisão brasileira vem ajudando demais o progresso do País. Por conta dos 40 anos de Globo a gente mexeu muito em arquivos de Vox Populi, como os ingleses chamam, usando o latim, "o povo fala", que a gente usa no jargão televisivo. Nos arquivos do Fantástico no início da década de 70, você pegava os entrevistados na rua, eles mal sabiam articular uma frase ou expressar seu pensamento. Hoje, você sai na rua, pode ir nos bairros mais humildes, as pessoas sabem falar, se expressar e reivindicar. Isso se aprendeu vendo televisão.
O brasileiro aprendeu a falar vendo televisão. Quem me chamou primeiro a atenção para este aspecto foi o Arnaldo Jabor, eu acho este o exemplo mais gritante. Agora, é claro que num país com as desigualdades do tamanho que o Brasil apresenta, com os desafios enormes que enfrenta, se espera e se cobra da televisão um papel que muitas vezes não é dela e que ela até busca atender. Agora, o que educa é escola. Televisão diverte. Claro que se pode usar televisão como veículo de instrução e informação, e é usado, fartamente. Mas se cobra da televisão um papel que não é dela, porque as outras instituições, que, estas sim, deveriam estar cumprindo melhor o seu papel, ensino, oportunidades iguais para todos, saúde, essas funções básicas e mínimas do Estado máximo ou mínimo, não estão cumprido. Acho que no balanço que se procura fazer sobre o que a televisão vem fazendo pelo Brasil, entre bom e mau, a gente fez muito mais o bem do que o mal.

PA: Você conviveu com Roberto Marinho?
PB: Só me encontrei com ele três vezes, nos cumprimentamos formalmente. Não fiz uma biografia, porque o tempo de pesquisa foi de um ano, mas um perfil biográfico. Fiz o texto com auxílio do Projeto Memória e depoimentos. Descobri coisas que os membros da família Marinho não sabiam, como a prisão de Irineu Marinho em 1922, na revolta do Forte de Copacabana. O Roberto Marinho ocultava, dizia que ele tinha se exilado na embaixada argentina. Fui descobrindo um ser humano por documentos e pessoas que estiveram com ele. Houve um documento que me impressionou muito, possivelmente no início da TV Globo, porque escrito numa máquina datilográfica toda adaptada para caixa alta, que era como se escrevia na época. É uma associação livre de idéias, mais freudiana que proustiana, infância, meia-idade, voltando para a juventude. Lá no meio, tem uma frase: "Elza, conseqüências do desengano". Quem é essa Elza? O que ela fez que o cara só foi casar com 42 anos? Que maltrato foi esse? O que ele passou nas mãos, ou nas pernas de Elza? E descubro uma foto, na praia de Copacabana, ele ao lado de uma senhorita chamada Elza, com coxas que chamam a atenção. Pronto. Não vou saber nunca quem foi a tal dessa Elza, mas isso me aproximou demais desse sujeito. Esse cara sofreu por amor, entendeu?

PA: Na sua opinião, o que levou Roberto Marinho a vencer, a construir o que construiu?
PB: Um espírito competitivo absurdo. Nunca me deparei com nenhum ser humano tão competitivo. Se fosse para vencer, mas não tivesse competição antes, ele preferia nem vencer. Gostava de competir, e eu acho que é um traço da família Marinho. Talvez o atual presidente das Organizações Globo, Roberto Irineu, seja tão ou mais competitivo que o pai. E na nossa tradição brasileira sempre existiu um legado lusitano de competir, mas fingir que não está competindo, uma certa falsa cordialidade, e ele rompia com isso, era meio protestante nesse sentido. De competir mesmo, querer mas com muita sagacidade, evitando o confronto direto, tentando contornar.

PA: Os jornalistas da Globo têm esta atitude de competitividade quando fazem as matérias em relação às outras empresas?
PB: Acho que cada vez mais. E acho bom. Um dos melhores jornalistas do Brasil, se não o melhor, na minha opi-nião, William Waak, é o sujeito mais competitivo que eu conheço. Eu sei porque nos conhecemos em várias coberturas em que ele trabalhava para o Estadão e eu trabalhava para a Globo. Nunca me passou nada e eu nunca passei nada para ele, e éramos leais competidores. Mentira: até passei para ele uma fonte muito boa que deu até no livro Camaradas que ele escreveu, uma fonte que eu consegui num arquivo em Moscou. E é também possivelmente não totalmente verdade que nunca me passou nenhuma dica. Aprendi muito com William Waak, mas o que eu aprendi principalmente é que tem que ser competitivo mesmo.
Agora, acho que já mudou, mas duran-te muito tempo vigorou no Brasil uma chatice de ver a mesma manchete em todos os jornais. E se você não tinha, tinha sido furado por outro. Não, isso não é o furo. Você tem que procurar e destacar o que você considera notícia, você como repórter, como editor do jornal e você como o cara que faz a primeira página do jornal. E não ficar com medo de não sair com a notícia que o outro vai sair.

PA: Nos últimos anos, alguns "luas pretas" do telejornalismo brasileiro saíram da Globo para outras emissoras. O último caso foi da Ana Paula Padrão. Você tem recebido um assédio muito grande das outras emissoras, ou o livro sobre Roberto Marinho te carimba?
PB: Eu espero que não. Você está pensando como se fosse o negociador que vai renovar o meu contrato no ano que vem. Eu visto a camisa da TV Globo, eu tenho muito orgulho de trabalhar, já vai para 25 anos. Tenho muito orgulho de ter trabalhado na construção de uma televisão como centro de excelência. Agora, sou um profissional. Fiquei muito feliz pela Ana Paula e feliz por todos os profissionais pela abertura de uma concorrência mais declarada, porque esta concorrência só beneficia a qualidade do noticiário do telejornalismo como um todo, como os profissionais que vão ter cada vez mais mercado de trabalho, porque é isso que nos interessa.

PA: E o assédio?
PB: Eu tive há cerca de três anos de uma emissora que prefiro não dizer o nome, mas não foi a mesma que levou a Ana Paula Padrão, que me procurou mas não foi adiante. Não passou da segunda reunião. Foi depois do Big Brother 2.

PA: Tem alguma coisa que te motivaria a trocar de emissora?
PB: É difícil ter condições de trabalho iguais às que eu tenho na Globo. Claro que eu me considero bem remunerado, mas dentro do mercado não estou entre os salários top. Mas hoje eu estou muito mais preocupado com a minha qualidade de vida, qualidade de trabalho. Nunca foi um objetivo, e continua não sendo, ficar rico. Eu quero é poder bancar uma boa educação para os meus filhos, e eu cometi a relativa insensatez de ter muitos filhos. Então, eu trabalho para poder pagar a educação dos meus filhos, a melhor possível, enquanto puder.

PA: Quantos filhos?
PB: Ao todo, cinco. Dois não são de minha autoria biológica, são filhos do José Trajano, da ESPN Brasil, com a Renée Castelo Branco, mas criei desde pequeninos. Eu costumo dizer que são os meus filhos com o José Trajano, todo mundo acha graça. Mas estes estão criados. Um tem 27 anos, já trabalha como repórter, e a outra tem 24 anos, se formou em Literatura e mora na Inglaterra.
A minha filha com a Renée tem 18 anos, eu tenho o filho com a Giulia Gam, o Téo, e o filho José, com Isabel Viegas, de três anos, ou seja, ainda vou ter que ralar uns 20 anos para pagar educação.

PA: Já "fechou a fábrica" ou pode vir outro?
PB: Fechei a fábrica e nem se toca no assunto. Vou aproveitar uma coisa engraçada... o meu descontrole de natalidade deveria nos levar a refletir sobre o controle de natalidade no Brasil. É um país que produz tanta riqueza. É um país rico e injusto, e se a gente quer diminuir esta injustiça não tem que falar só em produzir mais riqueza. É preciso ter um planejamento familiar "à vera", porque onde nasce mais gente é justamente nas camadas mais pobres, que têm menos acesso a oportunidades, e criar oportunidades para tanta gente. Acho que o Dráuzio Varela é a única voz que vejo clamando "vamos pensar nisso", "vamos controlar o crescimento populacional". Não vejo mais ninguém falando a sério nisso. Digo isso a meu favor, eu, pelo menos, espero dar as melhores oportunidades para os meus filhos.

PA: A poesia para você é uma catarse ou é uma forma de expressão necessária?
PB: Eu não sou um poeta profissional, publicável. É muito mais uma coisa confessional. Às vezes, eu me arvoro a tentar desenvolver alguma coisa mais tecnicamente. Mas é muito mais um desabafo. Em poesia sou muito mais leitor que poeta. Gosto de ler e acho que tenho uma boa leitura em voz alta de poemas. Ler poemas não é fácil. É uma grande arapuca para grandes atores. A poesia não é feita para ser interpretada. É para ser lida, dita, como faz, por exemplo, o professor Edson Néri, no Recife, que gravou um disco com poemas de Manoel Bandeira e é uma beleza.

PA: Quem são os poetas da sua preferência?
PB: Bandeira certamente é um deles, e outro que cada vez mais cresce no meu afeto é Vinícius de Moraes. Acho Vinícius subestimado só porque samba com os crioulos. "Como é que um diplomata vai fazer sonetos e samba?". O Vinícius é muito maior do que se diz. Ainda falta um reconhecimento à altura da obra dele.

PA: O que você conhece de Mario Quintana?
PB: Eu amo o Quintana. Conheço praticamente tudo. Foi um dos primeiros poetas que li. Eu tenho amigos que não gostam de poesia, porque dizem que não entendem. E é verdade. Esta é uma reclamação muito pertinente que qualquer leitor pode fazer. De poeta escrevendo para poeta. Ou escrevendo para si mesmo, ou sem o menor compromisso em ser compreendido.
E o Mario Quintana é um exemplo de
clareza. Você entende cada verso
dele, cada palavra. Quer dizer, quem real-mente entende do riscado e do ofício é claro quando fala. Você vê um Antônio Cândido falando, ou escrevendo sobre Literatura, qualquer leigo entende aquilo. Porque o Antônio Cândido domina aquilo integralmente, visceralmente. Já outros críticos literários escrevem um negócio que você fica se sentindo burro. Não é você que é burro, é ele que não está sendo claro. Eu perdi este complexo há muito tempo.


 
Marco Schuster
Editor
marcoschuster@terra.com.br
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