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Paulo Santana

Desta vez, não entrevistamos um, mas três. Paulo, Pablo e Pablito. Menos mal que eles convivem no mesmo corpo, no mesmo cérebro e comungam praticamente as mesmas idéias. Nenhum é colorado, por exemplo. Nem modesto: “Em 15 de junho de 1939, morreu, em Londres, Sigmund Freud, o maior gênio da humanidade, eleito no século passado. No mesmo dia, na rua da Margem, hoje rua João Alfredo, nasceu Francisco Paulo Sant’ana. Foi uma simples passagem de bastão”. É, foi ele mesmo que entrevistamos, Paulo Sant’ana, 66 anos, três filhos, três netos, dois casamentos, delegado de Polícia aposentado, também jornalista aposentado pelo INSS.
Um homem entusiasmado por si mesmo e pelos outros. Ele declamou, dizendo como tinham que ser publicados os versos, cantou música de Altemar Dutra e até recitou o primeiro verso do hino do Inter. Riu, brincou, falou sério na maioria das vezes. Teve veemência e teve calma. Às vezes, faz pausas mais prolongadas, nunca se atropelou nas próprias frases. Houve um momento em que chamou esta entrevista de “monumental”. E foi mesmo.
Ele foi o primeiro cronista esportivo do Rio Grande do Sul a declarar publicamente sua preferência clubística e chegou a escrever uma crônica dizendo os times dos outros. Foi uma confusão.
Mas isso ele faz desde adolescente. Quando trabalhava na feira, discutia futebol e uma vez respondeu a uma francesa que reclamava de um produto em francês. Já desmaiou no estúdio, já subiu ao palco com cantores famosos.
Depois de feirante, tornou-se inspetor de Polícia — e, quando podia, ia aos jogos do Grêmio, onde também começou a se destacar pela inquietude, pela verbosidade, pela interação com outros torcedores —, e foi na soma destas duas situações que fez contatos com a imprensa. Primeiro em esporádicas participações no programa de esportes “Conversa de Arquibancada”, na TV Piratini, depois visitando jornalistas da editoria de Polícia de Zero Hora. Um dia, Cândido Norberto o convidou para o Sala de Redação.
Pouco depois, ganhou uma coluna no jornal. Só que ele não se contentou em falar sobre o futebol. O jornalismo lhe abriu as portas do mundo: economia, política, cultura, qualquer assunto passou a interessar ao gremista mais famoso do Brasil. Foi assim que conquistou a coluna generalista na última página.
Já são 34 anos de crônica em rádio, jornal e TV. Não perdeu o gosto pela polêmica. Quando nos deu a entrevista, estava feliz com o retorno da enquete que tinha lançado: “É melhor ser primeiro na segunda ou segundo na primeira?”. Nem se acomodou: “Eu quero cada vez mais leitores, mais ouvintes, mais telespectadores”. Falou de afetos e desafetos e revelou: “Estou me convertendo, estou procurando Cristo, e vou encontrá-lo”.

PRESS ADVERTISING: Quem vai nos dar a entrevista, o Paulo, o Pablo ou ambos?
PAULO SANT’ANA: Acho que o Pablito. Quando o Paulo e o Pablo entram em conflito, intervém como juiz arbitral o Pablito. O Pablo, como todos vocês já sabem, é todo coração. O Paulo é cerebral e o Pablito é o que apazigua os dois. Ele está no meio dos dois e não permite que nenhum cometa excessos. O Pablito é totalmente mal-sucedido, porque o cérebro de Paulo comete excessos, extravagâncias, e o coração de Pablo é inexcedível, como Maiakovsky, e o Pablito que se vire para apascentar tal duelo de vaidades.

P.A.: Quais foram os maiores excessos que o Paulo cometeu e que o Pablo cometeu?
P.S.: O maior excesso que eu cometo é o de cada vez mais ansiar por maior popularidade, por mais audiência. Tanto o Pablo quanto o Paulo. Quero cada vez maior leitura. Eu não me contento em ser lido por poucas pessoas, em ser ouvido por poucas pessoas. Eu quero ser lido por todos. Este é o meu lema...

P.A.: Logo que nós chegamos, você falava que este é o seu melhor momento, em função dos e-mails recebidos em resposta à pergunta que você lançou.
P.S.: Este é o sexto momento maior da minha carreira. E talvez seja o maior de todos os seis. Vejam que em apenas algumas horas eu consegui no ClicRBS que 10 mil leitores respondessem à pergunta que fiz sobre o que você prefere: ser primeiro na segunda ou segundo na primeira. O Farid Germano Filho levou para a rádio Farroupilha a mesma enquete. Eu disse: “Não te dou licença, Farid, porque a minha coluna é de domínio público, tu fazes dela o que tu quiseres”. Ele levou para lá e em apenas duas horas na rádio Farroupilha ele recebeu 7.300 telefonemas. Recorde na rádio Farroupilha, recorde no ClicRBS, eu não sei mais onde vai parar este sucesso.

P.A.: E o que isso representa para você?
P.S.: Em primeiro lugar, se eu tentasse ser modesto nesta entrevista, ninguém iria lê-la, de tão maçante. Eu sou obrigado, diante das coisas que me acontecem, a ser megalomaníaco. Porque onde é que eu vou botar tanto agradecimento para os meus leitores, os meus telespectadores, os meus ouvintes? Eles têm que saber como repercute dentro de mim a preferência deles. Assim como eles todos os dias vêem o quanto repercute neles o que eu escrevo ou falo.

P.A.: Como foi a entrada na comunicação?
P.S.: Foi por acaso. No Sala de Redação, este gigante da comunicação, e um dos corações mais generosos que eu conheci, chamado Cândido Norberto, chamou-me ao acaso na redação da Zero Hora, para entrar no estúdio do Sala de Redação que recém tinha sido fundado. E eu entrei e comecei a conversar com ele. Ele pediu que eu fosse lá outros dias, e eu fui. Vinte dias depois eu já estava famoso. Sem ganhar um tostão. Trabalhei 30 dias de graça na RBS. Dois, três dias depois de contratado, eu já estava estreando minha coluna na Zero Hora. Foi o José Antônio Ribeiro, o Gaguinho, de saudosa memória, quem me trouxe para a Zero Hora.

P.A.: O Batista Filho lembra de ter convidado você para um programa na TV Piratini, o Conversa de Arquibancada.
P.S.: Eu participei deste programa, com Guilherme Sibemberg, Renato Cardoso e Ângelo Garbasky. Ali, realmente, foi o meu primeiro grito de comunicação. Eu era tão-somente um torcedor, mas já um pouco notável na torcida do Grêmio. E por isso me convidaram para o programa. Eu fui lá debater e debatia contra colorados. E quase sempre eu vencia. Esta foi a minha pré-estréia. Nem poderia ser pré-estréia, porque não havia método, nem freqüência, nem assiduidade. Eu fui a cinco ou seis programas.

P.A.: Uma das suas colunas históricas é aquela em que você aponta os clubes por quem os cronistas torcem. Isso lhe gerou uma antipatia generalizada.
P.S.: Foi logo no início da minha carreira. Eu tinha que causar impacto logo que eu estreei na crônica em 1971. E a maneira que eu achei mais bombástica de causar impacto foi nomear os maiores cronistas esportivos, cerca de 20, daquela época e dizer por que clubes eles torciam.
Só errei um. O Ranzolin, porque eu botei que o Ranzolin era colorado, e ele era gremista. Os outros todos eu acertei na mosca.
Aconteceu uma coincidência muito grande. Agora está me dando um acesso de modéstia... Quando eu entrei para a RBS, a Zero Hora era o quarto jornal do Rio Grande do Sul. O primeiro era o Correio do Povo, o segundo era Folha da Tarde e o terceiro, a Folha da Manhã. Por coincidência, logo depois que eu entrei instalou-se um processo que fez com que a hegemonia do jornalismo gaúcho se transferisse da Caldas Júnior para a RBS. Mas foi pura coincidência, eu fiz apenas uma parte mínima do processo de tomada da hegemonia da RBS.

P.A.: Você passou a escrever sobre outros assuntos porque encheu o saco de futebol?
P.S.: Eu escrevi durante 19 anos sobre futebol. A minha crônica era a mais lida no Rio Grande do Sul, durante quase todo o tempo, porque existia o Cid Pinheiro Cabral, que também era muito lido. Acontece que eu lia oito jornais por dia: Rio, São Paulo, Brasília e Porto Alegre. Eu lia as revistas semanais brasileiras. Fui me entusiasmando pela política, economia, pelas mundanidades, pelas frivolidades, por tudo. Não tinha mais por que ser cronista esportivo. Eu pressionei a direção da RBS durante anos para ter uma coluna sobre generalidades. Quando eu escrevia sobre futebol recebia nove cartas por dia. Ontem e anteontem eu recebi 700 e-mails.

P.A.: Como é que você dá conta disso?
P.S.: Eu não consigo ler todos. Mas eu leio 90% dos e-mails que me mandam. Não respondo porque não tenho estrutura. Não há estrutura que suporte o retorno que leitores, ouvintes e telespectadores me dão. Não tem como responder a todos, mas conhecer o que eles dizem, eu conheço. Isso é o que interessa.

P.A.: Quando você termina de escrever uma coluna, sabe que vai estourar?
P.S.: Às vezes eu tenho a certeza de que a minha coluna fará um retumbante sucesso. Outras, eu não tenho bem certeza, acho que não vai fazer sucesso e ela estoura. Eu me sinto realizado quando as pessoas chegam para mim e dizem: “Eu chorei, ontem, quando li a tua coluna”. Ou escrevem pra mim: “Ontem, eu chorei”. O Rio Grande inteiro chorou com algumas colunas que eu escrevi. E o Rio Grande inteiro às vezes dá gargalhadas com algumas colunas minhas. Quando eu faço as pessoas chorarem ou rirem é o meu instante maior como cronista.

P.A.: O indignado com pardais e pedágios é o Paulo?
P.S.: É o Paulo. O Paulo é cerebrino e faz as pessoas pensarem. O Pablo faz as pessoas rirem e chorarem.

P.A.: E a crônica dos amigos que não vê há muito tempo...
P.S.: Aquela é uma das crônicas mais famosas, se não a mais famosa minha. Os amigos que eu não vejo há muito tempo, mas eles que fiquem com a certeza de que eu os amo. E os amo sem visitá-los, sem ter tempo de privar deles. Mas eles sabem, têm certeza de que eu os amo e eu também tenho a certeza de que eu não seria nada sem eles.

P.A.: Quais são os seus amigos, aqueles com quem você compartilha as coisas mais íntimas?
P.S.: Eu tenho vários amigos. E se eu disser os nomes deles aqui vou causar um grande problema. Mas os meus melhores amigos sabem que eles são os meus melhores amigos. Eles estão na RBS, estão na rua, estão em Porto Alegre e no interior do Estado. São mais de dez.

P.A.: Tem algum colorado entre eles?
P.S.: Tem, claro que tem. Eu sou casado com a filha do Nélson Silva, que criou o hino do Internacional, um dos maiores colorados que já surgiram aqui. Era carioca, adotou o Internacional, viveu aqui, foi radioator, ator, cantor, bailarino, diretor de teatro. “Glória do desporto nacional, oh, Internacional, que eu vivo a exaltar”. Esses versos são do pai da minha mulher, Inajara Silva.

P.A.: Ao longo da vida, você tem mais afetos ou desafetos?
P.S.: Tenho poucos desafetos. E grandes afetos. A maioria dos desafetos que tenho é por rivalidade profissional.

P.A.: Há muita ciumeira?
P.S.: Na verdade, tem muita gente com ciúmes de mim. E na verdade eu tenho ciúmes de muita gente. O ciúme e a inveja são sentimentos intrínsecos, inseparáveis do coração humano. Eu já disse que a inveja não é o medo de perder. É o medo de perder para outrem.

P.A.: Isso é Vinícius?
P.S.: Isso é Paulo Sant’ana. O Vinícius disse outra coisa mais bonita. Aliás, na Internet, essa crônica “Meus Amigos” está como sendo de Vinícius de Moraes. Não é. O ciúme é indispensável. Se me entregarem uma mulher que não tiver ciúme eu não terei o que fazer com ela. Para mim, ela será inútil.

P.A.: Tem uma história de que você abreviava as férias quando o interino fazia sucesso?
P.S.: Até hoje eu faço isso.

P.A.: Mas isso não está de acordo com a sua megalomania.
P.S.: Todo megalomaníaco é paranóico. Todo megalomaníaco tem medo que alguém o supere.
O problema é o seguinte: quando colocam na sua coluna uma pessoa sem pretensão, que entra ali modestamente, que até entra falando em você, que é o titular, tudo bem. Mas de repente colocam um interino priápico, querendo o seu lugar, querendo fama. Aí eu volto e com isso ele se afasta e eu continuo na coluna.

P.A.: Mas houve interinos seus que usaram a pena com maestria. Daqueles que chamaram sua atenção, “esse cara escreve bem demais”...
P.S.: Existem até hoje. O Liberato Vieira da Cunha escreve na minha coluna, o Moisés Mendes, o Marcelo Rech, a Rosane de Oliveira, o David Coimbra, Luiz Zini Pires... quem mais? Depois esqueço alguém e fica magoado... A RBS venceu, e é hoje a principal empresa de comunicação do Rio Grande do Sul porque sua característica básica é ter nos seus quadros, em rádio, jornal e televisão, aqueles que teoricamente são os melhores profissionais do Rio Grande do Sul. Ela pode até não ter todos, mas se esforça por tê-los.

P.A.: Isto é do Maurício?
P.S.: É dele. Ele e o Jayme Sirotsky fizeram ver aos filhos e ao Fernando Ernesto Correia também, e aos seus diretores, que a RBS não podia abrir mão dos melhores. Ela às vezes não tem os melhores. Mas busca, e o esforço que faz para manter os melhores é algo que dignifica a ciência de fazer comunicação.

P.A.: Por falar em melhor, o Ronaldinho é um novo Pelé?
P.S.: O Ronaldinho ameaça ser igual a Pelé. Acho que melhor, não. E pelo que vi de Anderson, nesse tempo pequeno que ele nos deixou que o víssemos, pode ameaçar a vir a ser igual a Ronaldinho. O Anderson joga mais, aos 17 anos, do que Ronaldinho e Pelé quando tinham 17 anos. Vão dizer que é um absurdo o que estou dizendo. O Anderson talvez nunca consiga atar a chuteira do Ronaldinho e do Pelé...

P.A.: Mas o Pelé com 17 anos estava na seleção.
P.S.: É verdade, você está me recordando um fato, mas se você desse a oportunidade ao Anderson de estar na seleção, ele faria o que o Pelé fez. No Rio Grande do Sul o jogador aparece muito mais tarde. Se fosse em São Paulo, apareceria mais cedo.

P.A.: Você disse que esse era o seu sexto grande momento da carreira. Quais foram os outros?
P.S.: Um foi quando dei uma entrevista à Newsweek em Paris, porque tinha sido o primeiro jornalista brasileiro que havia experimentado o Viagra e contado nos seus espaços quais eram as suas inconveniên-cias e atributos. Deu uma página. Eu realmente subi nos céus, quando aconteceu aquilo. Outro grande momento meu foi quando havia 50 mil pessoas no Beira-Rio e cantava o Julio Iglesias. Ele cantou cinco músicas. Terminou a quinta, ele pegou o microfone e disse: “Quiero que venga hasta el palco mi amigo Pablo Sant’ana”. Aí foi o Pablo. Eu cantei com Julio Iglesias. No dia seguinte, Zero Hora mostrou na capa uma foto incrível: ele colocando a ponta da língua dentro da minha orelha. Como sempre digo, eu levanto todas as manhãs sofrendo alguns calafrios até hoje.

Outro foi quando o Grêmio ganhou o campeonato mundial em Tóquio. Eu tinha cantado em prosa e verso durante dois anos o jogador Renato Portaluppi. Num dos anos, o Ênio Andrade o deixou no banco durante uma Libertadores da América inteira, em 1982. Assim como o Celso Roth deixou o Ronaldinho no banco, ou queria deixar, e assim como Mano Menezes deixou incrivelmente o Anderson escondido durante 90 minutos de jogo. Isso nunca houve na história do futebol mundial. Pois o Mano Menezes fez, o Ênio Andrade, que era um grande treinador, fez e o Celso Roth, que também é um grande treinador, fez. Quando os treinadores cometem absurdos, Pablo enlouquece. Paulo se revolta.

P.A.: Você falou há pouco de morrer, de que falta pouco. Você escreveu o seu epitáfio há mais de cinco anos. Por que esta fobia pela morte?
P.S.: A morte é uma das coisas que mais me intrigam. Como diz o Augusto dos Anjos,
“É a Morte - esta carnívora assanhada –
Serpente má de língua envenenada
Que tudo que acha no caminho, come...
- Faminta e atra mulher que, a 1o de Janeiro,
Sai para assassinar o mundo inteiro,
E o mundo inteiro não lhe mata a fome!”
A morte é um dos fatos mais intrigantes para a inteligência e para a sensibilidade humana. Não tem explicação que depois de tudo o que nós fizemos aqui, da família que formamos, das idéias que erigimos, que isso tudo acabe. Não pode ser assim. Então eu acredito muito na reencarnação. Não pode uma pessoa vir rica aqui nesse mundo e a outra vir pobre, uma gorda e a outra magra. Uma vir inteligente e a outra, burra. Isso é uma injustiça. Então, Deus repara uma injustiça provocando uma reencarnação. Quem veio pobre reencarnará como rico. Para que haja uma igualdade.

P.A.: Você vai retornar como colorado?
P.S.: Talvez, para compensar, eu venha a ser colorado, eu, que sofri uma das maiores alegrias da minha vida sendo primeiro na segunda, para experimentar este travo amargo da existência que é ser segundo na primeira.

P.A.: A cada ano eleitoral , surge a notícia de que você será candidato a senador. Mas você nunca faz um desmentido categórico. Quais são os seus planos para a política?
P.S.: Eu fui um infeliz na política. Todo mundo pensou que eu ia ficar no PMDB no ano em que o PMDB elegeu maior bancada que o PDT, eu troquei o PMDB pelo PDT. Era uma barbada. Todo mundo votava no PMDB. Na política eu fui um desastrado. Então, quando falam: “Ô, Sant’ana, vai para senador, que é uma barbada para ti”, eu fico tentado, porque eu gostaria de ser velado também no Salão Negro do Congresso Federal. Fico tentado, mas um dia eu perguntei para o Fogaça: “Fogaça, você é senador há 16 anos. Eu estou muito indeciso: devo concorrer a senador?”. Diz ele: “Sant’ana, não faz isso”. E aí ele me convenceu. “Por quê, Fogaça?” “Sant’ana, tudo o que um senador gaúcho mais almeja na sua vida é ter meia página na Zero Hora por mês, ou a cada dois meses. Tu tens meia página por dia. O que tu queres como senador?”

P.A.: Vamos falar um pouco dos teus amores, vida boêmia. Você amou demais, seu coração se alargou demais?
P.S.: O “meu coração tem catedrais imensas, templos de priscas e remotas eras” (poema Última Visio, de Augusto dos Anjos). Eu sou uma pessoa dada à paixão, dado ao amor. Eu amo os animais! Eu nasci para amar, o meu coração tem portões largos de entrada. Não saberia dizer se eu amo mais o Grêmio, ou amo mais as mulheres que me amaram... sei lá. O fato é que a gente sempre está onde não está a felicidade. Como diz um poeta, a felicidade está num lugar e nós botamos a nossa vida no outro. A felicidade está sempre onde a pomos, mas nós nunca a pomos onde estamos.

P.A.: Quer dizer, você não consegue se relacionar com as coisas sem paixão?
P.S.: Eu vou dar para vocês um quase furo, se não for furo. Nos últimos 30 dias, eu estou num processo de conversão. Eu estou me aproximando de Deus através de uma religião. Estou achando que tenho que passar os últimos dias da minha vida, e falta pouco, nos braços de Deus, ao lado do Senhor. Estou achando que o homem só encontra a felicidade na face da Terra quando é crente em Deus. E quando se submete a Deus e quando é obediente a Deus e quando entrega a Deus o seu destino. Eu até agora procurei forjar o meu destino. Daqui por diante eu vou entregar a Deus. Quero que ele me chame para, na Eternidade, ficar sentado na sua mão direita.

P.A.: Antes, você falou em reencarnação, agora em busca de Deus. Esta é a chave da coisa?
P.S.: Dizem os filósofos que nós queremos saber quem somos, para onde vamos, qual a nossa origem. Dizem os filósofos que o maior dever do homem na Terra é buscar a felicidade. E eu refutei os filósofos. Eu disse: “Não, pois se vocês mesmos nos ensinaram que a felicidade é efêmera e não existe permanentemente, então não é a busca da felicidade a maior meta do homem na Terra”. A maior meta do homem na Terra, filósofos, permiti que eu ouse discordar de vós, é a busca possível, isto é, de ser menos infeliz. Isto é, nós temos na Terra o dever de ser menos infelizes, e não de ser felizes.

P.A.: Pouco tempo atrás você escreveu uma coluna dizendo mais ou menos assim: “Me convertam”. “Eu quero ouvir um pregador brilhante.” Já ouviu?
P.S.: Ainda não ouvi, mas me mandaram 500 e-mails me sugerindo. Fui a três ou quatro igrejas e uma delas está me encaminhando a minha conversão, se Deus Nosso Senhor quiser.
Eu acho que a gente tem que se aproximar de Deus. Jesus é o Rei dos Reis.
Ponham em versos isso:
“O amor é escada sublime,
Vasta, imensa, luminosa
Que leva o filho do crime
Ao doce olhar de Jesus
É chama de fogo eterno
Que ascende vertiginosa
Dos sorvedores do inferno
Aos sorvedores da luz
Que o fogo de mil crateras
Tombasse sobre o Universo
E mar, e homens, e feras,
Ficasse tudo submerso
Embora passado um dia
Nalgum ângulo de rocha
Onde a urze desabrocha,
O amor desabrocharia”
Esta poesia de um autor desconhecido foi posta no frontispício de um livro de Guerra Junqueiro, o grande poeta português. Ela diz que o amor leva o filho do crime ao doce olhar de Jesus. Por isso é que eu me empolgo pela religião. Se Cristo é a única força capaz de um ato de transmutação do caráter de um homem, então Cristo é a salvação. Por isso é que estou procurando, ultimamente, Cristo. E se ele me ajudar, eu vou encontrá-lo.

P.A.: O que isso pode mudar na sua vida?
P.S.: Pode me fazer mais compreensivo. Pode me fazer mais generoso. Pode me fazer mais amoroso. E acima de tudo, isso é o mais importante, pode vir a sanar minhas dúvidas. Eu sou um homem repleto de dúvidas.

P.A.: Pelo menos apaziguá-las.
P.S.: Exatamente, você tem razão, que ele pelo menos as suavizasse, que elas não fossem tantas e tão fortes. Uma das dúvidas que eu tenho: por que Deus permite que exista o mal? Por que Deus permite que exista o diabo? Deus é o Senhor de todas as coisas e criou todas as coisas. Criou o diabo e o mal. E há miséria no mundo, há catástrofes no mundo. Das misérias são culpados os homens, mas das catástrofes, quem são os culpados? São dúvidas que eu tenho. O homem não deixa que essas riquezas sejam distribuídas para destruir a fome e a miséria. Por que Deus permite este colossal infortúnio da Humanidade? Essa é uma dúvida que eu tenho. Como eu não encontrei solução para esta dúvida na minha capacidade intelectiva, tenho que encontrá-la na fé. Onde a razão acaba, a crença principia, como diz Kierkgaard.

P.A.: Cada vez tem mais Pablo que Paulo nesta busca da fé. Ou os dois vão se conciliando?
P.S.: Os dois são cúmplices. Não é em mim que são cúmplices. Nós todos somos coração e somos cérebro. E quando eles entram em conflito, o homem se perturba, se incendeia. E é um dos momentos mais tristes da condição humana. Quando há uma luta dentro do próprio ser, entre a razão e o coração. Como diz Olavo Bilac: “Residem juntamente no meu peito, um demônio que ruge e um deus que chora”. Quando este embate se trava entre razão e coração dentro do seu próprio ser, isto ao mesmo tempo lhe tortura ou isso lhe sublima. Nesse ponto, Deus foi sábio. Ele deu-nos a razão e o coração e mandou que os dois se auto-administrassem. Isso foi lindo. É triste, é fatídico, mas é também sublime. Essa é a luta que eu vivo e essas são as minhas dúvidas. Como vou administrá-las? Vou tentar viver os meus últimos dias no caminho do Senhor.

P.A.: Qual seria o seu epitáfio hoje?
P.S.: Em primeiro lugar, eu queria ser levado para uma dessas gavetas modernas de cemitério.

P.A.: De frente para o Olímpico
P.S.: Talvez, ali no João XXIII, de frente para o Olímpico, como estão o Everaldo e o doutor Saturnino Vanzelotti. Mas temporariamente, até que fosse construído um mausoléu no centro do parque Farroupilha. Me colocassem entre dois jazigos: de Mario Quintana e Lupícinio Rodrigues. E as pes-soas visitariam ali, para todo o sempre, as três maiores sensibilidades gaúchas de todos os tempos.

P.A.: Até na morte, megalomaníaco...
P.S.: Principalmente na morte.

P.A.: Bate-bola final. Melhor lugar da sua casa. Onde gosta de ficar?
P.S.: Minha cama.

P.A.: Qual é o seu livro de cabeceira?
P.S.: Millôr Fernandes.

P.A.: Filme que mais mexeu com o coração e a mente?
P.S.: “Depois do Vendaval.” John Wayne e Maureen O’Hara. Vi-o 40 vezes.

P.A.: Por quê?
P.S.: Porque ele mostrou o que é a Irlanda. E mostrou que é um povo bucólico, simples. Mostrou o que é o amor, o que é a família, a tradição. É um filme inesquecível.

P.A.: Agora, Millôr Fernandes é uma leitura do Paulo, é cerebral.
P.S.: Ele é mais cerebral. O Antônio Maria é leitura do Pablo. O maior de todos os cronistas, cada vez mais me convenço, foi Antônio Maria, o autor de “ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém me chama de meu amor”. Mas o Millôr te faz pensar. E é dele o meu lema como jornalista. Ele diz o seguinte: “O jornalista tem o dever de ser oposição a todos os governos. O resto são secos e molhados”.

P.A.: Você votou no Lula?
P.S.: Uma pergunta assim não devia ser feita numa hora dessas. Primeiro lugar, se eu não votei, diriam que eu não tenho esperanças. Se eu votei, diriam que eu sou culpado. Então, poxa vida, deixa pra lá. Aliás, eu não sei se votei em branco na última eleição, mas na próxima vou. Posso garantir. Depois dessa desilusão, aconselho todos a votar em branco. Porque é o único costeiro — essa palavra a minha madrasta usava muito —, é o único susto que podemos dar aos políticos: votar em branco.

P.A.: Você acha que isso tem conseqüência?
P.S.: Claro, porque aí um dia se emendam. De medo da opinião do povo.

P.A.: Gosta de comida, qual o seu prato preferido?
P.S.: Gosto de comida mas não sou um glutão. O prato que me dá água na boca é camarão. Basicamente a massa, em segundo lugar o camarão. Massa com camarão é o êxtase.

P.A.: Bebida?
P.S.: Eu não bebo. Mas às vezes eu bebo um vinho. Cheval Blanc, um tinto francês. Mas eu não posso beber esse vinho, porque custa 1.300 dólares a garrafa. Quando algum amigo me oferece eu entro numa euforia... Se um dia vocês puderem beber um cálice, é melhor que possuir, na alcova, a Adriane Galisteu.

P.A.: Você não bebe por opção, por questão de saúde?
P.S.: Não me orgulho de não beber álcool, eu gosto de cigarro. Cada um tem o seu vício. O meu, graças a Deus, é o cigarro. Se não fosse, seria o álcool, ou seria a cocaína e eu estaria já destruído. E o cigarro não me destruiu. O cigarro me conserva e me inspira a dar entrevistas monumentais como esta que estou dando para a revista Press.

P.A.: A despeito do conselho do seu médico.
P.S.: Os médicos caluniam o cigarro. O cigarro causa sete doenças. Câncer no pulmão, comprovado; efisema, comprovado; problemas cardíacos, comprovado. Mas começam a inventar outras 700 doenças, caluniam o cigarro. Não mintam, que é melhor para vocês, para a campanha justa, idônea e saudável de vocês, porque salva vidas. Façam campanha contra o cigarro. Eu colaboro com qualquer campanha contra o cigarro. Tanto que deixei de fumar na televisão para dar o exemplo, ou para não dar o exemplo. Mas não mintam.

P.A.: Voltando ao bate-bola, você seca o Inter?
P.S.: Grande pergunta, essa. No dia seguinte à conquista do primeiro campeonato brasileiro pelo Grêmio, eu fui ao Jornal do Almoço enrolado na bandeira do Grêmio. Eu comecei a falar de modo que os torcedores quase não entendiam, devido ao mesmo entusiasmo. De repente, eu caí. Desmaiei. Anos depois, o meu compadre e jornalista Carlos Bastos, grande gremista, companheiro, perguntou para mim: “Sant’ana, aquela vez você desmaiou mesmo ou fingiu?”, e eu disse para ele: “Bastos, até hoje, até mesmo eu, não sei se desmaiei ou fingi”. Então, você me pergunta se eu seco o Internacional, eu não sei. Porque, às vezes, até quem sabe torço.

P.A.: Esses dias você fez um comentário no Sala de Redação dizendo que o Cacalo não representava os gremistas, mas os anti-colorados.
P.S.: O Cacalo é anticolorado, e eu sou gremista. E o gremista é distinto dos demais seres humanos. É diferente, para cima dos outros. E um secador não é diferente para cima, é diferente para baixo. Então, eu não seco o Internacional.

P.A.: Dos jogadores da história do Internacional, quais você gostaria que tivessem jogado no Grêmio?
P.S.: Pelo que ouço falar, pela lenda, Tesourinha. Ele jogou no Grêmio, mas no fim de carreira, não era o mesmo jogador. Falcão, Carpeggiani...

P.A.: Figueroa?
P.S.: Não, eu só preciso de jogadores que eu não tenho. Eu tenho Airton, que era 20 vezes melhor que o Figueroa. Só quem não viu não sabe. Airton nunca fez uma falta. Nunca fez um pênalti. E foi o maior jogador de defesa do Brasil de todos os tempos, acima da lenda Domingos da Guia. Então, Figueroa não precisava. Até mesmo porque eu tinha Airton e Calvet, a maior dupla de zaga do futebol mundial de todos os tempos.

P.A.: Do Inter de hoje, quem você gostaria de ver no Grêmio?
P.S.: O Tinga, apesar de ter ido para o Internacional. Isso é um pecado mortal.

P.A.: Mas quantos foram do Inter para o Grêmio? O Batista foi para o Grêmio.
P.S.: Eu estou brincando, o Tinga é uma bela pessoa. Estou apenas dizendo o que diria um torcedor fanático. Eu já fui fanático. Hoje não sou mais, sou uma pessoa serena.

P.A.: Só o Tinga você ia querer?
P.S.: Fico tentado a dizer que levaria o Fernandão, mas ele resolveu penetrar nuns altos e baixos ultimamente, me desiludi com ele.

P.A.: E dos atuais jogadores do Grêmio, que ganharam a segundona, quem ficaria?
P.S.: Se eu pudesse manteria todos, porque jogadores vitoriosos assim podem nos dar a surpresa de serem campeões também na primeira divisão. Quanto à segundona que você perguntou, este foi o maior título que o Grêmio conquistou em todos os tempos. Por que eu digo isso? Porque eu dizendo isso os colorados ficam um poço até aqui de mágoa. Eles pensam: “O quê? Isso para os gremistas foi mais importante que Tóquio? Então, vamos desmoralizar isso”. Agora o Grêmio ganhou mais, ganhou a eternidade: sete homens em campo e os pênaltis não convertidos, isso entra para a lenda do futebol. Segundona, para mim, é segundo na primeira.
(Pára, sorri) O fotógrafo está encantado com a entrevista. Alguma vez você presenciou uma entrevista mais emocionante do que esta? (O fotógrafo sacode a cabeça e diz que não). Escrevam vocês aí.

P.A.: Uma mulher?
P.S.: Uma mulher? Tem certeza desta pergunta? Minha mãe, Nair Sant’ana, que eu não conheci.

P.A.: Você foi criado por quem?
P.S.: Por tias e pela minha madrasta.

P.A.: O Sant’ana da “esquina do pecado”?
P.S.: “Esquina do pecado” é Barão do Triunfo com 20 de Setembro. Foi um dos momentos mais felizes da minha vida, porque a algazarra, a camaradagem, a sátira e a peraltice rechearam a minha adolescência de sonhos e delícias. Que esquina, aquela. Dilamar Machado (radialista, deputado, falecido), Marco Aurélio Garcia, hoje assessor do Lula, era dali. Mas não são só esses dois. É o Fogão, é o Rubinho, é o Coró, o Cabeça de Diabo. Figuras folclóricas.

P.A.: Nessa época você trabalhava na feira, com seu pai?
P.S.: Sim. No final dessa época eu fiz concurso para inspetor de Polícia.

P.A.: Você já comunicava na feira?
P.S.: Ah, já. Ali na João Teles. Ali, todas as terças-feiras, às 8 horas da manhã ia uma senhora francesa comprar palitos de chocolates Aymoré. E eu não sabia nada de francês, mas ela com gestos ia pedindo as coisas, sanduíche, waffers, e um dia eu preparei uma peça para ela. E um dia ela me disse que tal biscoito não era bom, enquanto eu a servia. Eu disse para ela: “Je ne suis pas d’acord avec ce que vous dites, mais je defedrai jusque a la mort le votre droit de le dire”. “Eu não estou de acordo com o que vós dizeis, mas defenderei até a morte o direito de dizê-lo”. Essa mulher ficou vermelha. “Como é que um simples feirante aqui no Brasil vai me dizer uma frase em francês?” Então, eu já me notabilizava por ser gremista e por ser piadista. Já era notável.

P.A.: Fale, rapidamente, do seu amor por Maurício Sirotsky Sobrinho.
P.S.: Pois eu pedi que o fotógrafo me tirasse uma foto com o seu Maurício ao fundo, nessa sala. Ele é um dos meus incentivadores. Quando eu surgi, uma vez um grande comentarista escreveu num jornal da capital, concorrente: “Como é que aceitaram Al Capone na crônica esportiva?” Queriam me destruir.

P.A.: Por que Al Capone?
P.S.: Acho que porque eu denunciei quem era colorado e quem era gremista. Eu era extravagante, porque eu passava dos limites. E o Cândido Norberto me defendia no Sala de Redação, dizia: “Vocês não têm que interpretar o Sant’ana, tem que entendê-lo, compreendê-lo.”.

P.A.: E essas brigas. Você teve algumas brigas no Sala de Redação.
P.S.: Grandes, enormes. Físicas e verbais.

P.A.: Por que elas aconteceram? O Pablito não conseguiu resolver os problemas?
P.S.: Se você colocar quatro, cinco, seis pessoas a discutir futebol, ou religião, ou filosofia, ou sociologia, elas acabam brigando. Se você coloca um homem e uma mulher dentro de uma casa, o que acontece entre eles? Briga. (canta) “Brigo eu”, Altemar Dutra, “você briga também por coisas tão banais. O amor/ em momentos assim / morre um pouquinho mais/ e ao morrer então/”, estou operado não posso ainda cantar, não tenho agudo, “é que se vê que morreu/ fui eu e foi você/ pois sem amor vivemos sós/ morremos nós.”
Briga, briga e briga.

P.A.: Essas brigas no Sala têm seqüência ainda hoje. Chegou ao ponto de só se falarem no Sala...
P.S.: Hoje está pior ainda, porque se guarda um ressentimento. Felizmente, uma semana depois, às vezes até no dia seguinte, a gente se reconcilia, mas está pior. Não dá para botar ninguém num rinhadeiro sem que se atraquem os galos.

P.A.: E ali todos são galos?
P.S.: Eu espero. Se tiver alguma galinha está inrustida...

P.A.: Valeu, obrigado.


 
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