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Charles Kiefer

Por Julio Ribeiro e Marco Antonio Schuster.
Fotos: Lucas Uebel.



O patrono da Feira do Livro de 2008 comemora 50 anos dia 5 de novembro, “no meio da Feira”. Vendeu mais de 330 mil exemplares em 20 anos, mas não mantém nenhuma esperança de viver da literatura. Sustenta-se do que chama “valor agregado” gerado por ela: professor da PUC, oficinas de literatura, bolsas e palestras.
Charles Kiefer nasceu em Três de Maio, cidade de colonização alemão no noroeste gaúcho, e sempre esteve muito mais interessado em livros e música que em peladas de futebol com os amigos. Questão de gosto, e também de condição física: “Sabe aquele cachorrinho que nasce fraco e a mãe abandona porque não tem chance de vida? Era eu. Como nasci gente, me criei”.
Já andava com volumes de Goethe, Nietzsche, Tchecov e Tolstoi antes dos 14 anos. Nem samba nem rock and roll naquela idade: seus compositores preferidos eram Beethoven, Bach, Vivaldi, “músicas de enterro”, diziam amigos e parentes. Um dia, escreveu e apresentou ao professor de literatura alguns poemas e recebeu entusiasmado apoio para publicar um livro. Veio a Porto Alegre com carta de recomendação. O livro saiu, mas hoje Charles nem conta como integrante de sua bibliografia.
Em seguida publicou outros dois livros, que também não lhe agradam. Trabalhou como bancário, jornalista (editor de O Noroeste, de Santa Rosa) e secretário até enviar um original a Roque Jacoby e transferir-se definitivamente para Porto Alegre.
Pai da jornalista Maíra, filha do primeiro casamento com Priscila, e de Sofia (6 anos) , filha do casamento com Marta.
Já conquistou três prêmios Jaboti, da Câmara Brasileira do Livro, Prêmio Afonso Arinos da Academia Brasileira de Letras, dois prêmios da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (Monteiro Lobato e Altamente Recomendável), prêmios Otávio Farias e Guararapes da União Brasileira de Escritores, foi secretário da cultura de Porto Alegre, secretário-adjunto estadual da Cultura (ambos em governos do PT). Calcula que já formou 200 escritores em sua oficina de literatura. Por isso, diz que ser patrono na Feira do Livro era o único objetivo na vida que lhe restava. Isso até esta entrevista, porque durante a hora e tanto em que conversamos e rimos descobriu uma nova meta: ser cidadão honorário de Porto Alegre. Mas essa é uma preocupação que só começa em 16 de novembro, depois da Feira e do badalar da sineta do Xerife.


Kiefer quer dizer o quê?
Quer dizer duas coisas: mandíbula e também um pinheiro selvagem, bom para fazer móveis. Osso e madeira.

Vai ver teus antepassados eram marceneiros...
Ou aqueles trogloditas que pegavam o osso para matar.

Em Três de Maio lia o quê?
Lia de tudo. Por exemplo, aos 14 anos estava lendo um texto sobre o Tolstoi, tinha lido um livro dele e fui buscar mais informação. Alguém lá escreveu que ele disse a frase “se queres ser universal, pinta a tua aldeia”. Aí eu me dei conta de que o meu campo de atuação deveria ser a colonização alemã.

Ao 14 anos você já tinha decidido que seria escritor?
Muito antes. O que me impactou muito foi a leitura, quando tinha 12 anos, do Also Sprach Zarathustra, Assim falou Zaratustra, do Nietzsche. Quando eu li aquele livro desabou um monte de certezas da minha vida.

Você matou Deus na praça?
Não cheguei a matar Deus na praça, mas subi a montanha. E o ar lá em cima era rarefeito e gelado. A frase dele. Em escrevi no teto do quarto, em verde, uma frase do Sartre: “Um homem será, antes de mais nada, aquilo que tiver projetado ser”. É a abertura do meu livro Caminhando na chuva.

Como eram as tuas tardes em Três de Maio?
Lia, ia à escola, jogava meu futebolzinho, mas era tão ruim, tão ruim que...

Que nem te convidavam para jogar?
Olha, chegou uma época em que descobri um certo talento para jogar na ponta-esquerda no futebol de salão. Eu chutava bem de canhota. Mas eu era muito fraquinho. Sabe, da ninhada de cachorrinho aquele doentinho que a mãe dá um jeito de matar quando nasce? Só que como eu nasci humano, me criei. Mas sempre fui meio pesteado.

Mas apesar disso veio sozinho para Porto Alegre.
Era o desespero da vida medíocre. Não ter com quem conversar sobre o que eu queria conversar, sobre o que eu queria fazer. Eu não encontrava nos meus colegas, nos meus vizinhos, nos meus familiares nenhum diálogo cultural. Eu gostava do Mozart, Bach, Beethoven. Eles achavam aquilo uma bobagem. Meus familiares diziam “bah, ele fica ouvindo essas músicas de enterro”. Por que no interior, quando morria alguém, tocavam música clássica, era considerava música fúnebre. Então, eu era o doente. Mas tive professores importantes. A história foi assim: um professor de literatura solicitou um trabalho de férias de inverno. Ele disse: “Na volta das férias de inverno vocês tragam um poema de lavra própria”. E eu cheguei na aula, 20 dias depois, com um livro de poesia. Ele leu aquele negócio e disse “por que tu não publicas um livro com isso?”. Falou para o padre diretor da escola. Ele também gostou e mandou uma carta, chamada carta em mãos, se usava muito isso, para um sujeito em Porto Alegre, e pedia que o cara me ajudasse. Esse cara era o Nelson Fachinelli, uma figura conhecida, poeta. E o Nelson e o Mario Quintana me ajudaram.

Veio morar onde?
Eu fiquei numa pensão uns dias ali e fiquei acionando essa coisa toda. Aí, acabei publicando o livro, por conta própria, na Grafosul. Se chamava Lírio do Vale. Está publicado, mas eu compro de volta e destruo.
(...)

Intrevista na íntegra na Revista Press & Advertising


 
Marco Schuster
Editor
marcoschuster@terra.com.br
Pedro Bertelle
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Ruy Castro
Entrevista:
Pedro Bertelle
Vida de Criativo:
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Vida de Repórter:
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