Há 45 anos, uma rede não comercial de rádio, com estúdios nos porões do Palácio Piratini, foi a principal arma da população para evitar um golpe de Estado. Entre 27 de agosto e 5 de setembro de 1961, jornalistas, radialistas e políticos revezaram-se em frente aos microfones desta emissora com um único objetivo: manter a população mobilizada para garantir a posse do vice-presidente João Goulart. “Ainda temos que analisar muito daquele episódio”, diz Lauro Hagemann, um desses radialistas e que se tornou a “Voz Oficial” dessa rádio, a Rádio da Legalidade. “Não foi um acontecimento local, tinha muitos interesses envolvidos, inclusive internacionais”.
Eram os anos da Guerra Fria, a da disputa pelo domínio do mundo entre Estados Unidos e União Soviética. Mas a causa imediata da formação da “Rede da Legalidade” foi a renúncia do presidente brasileiro Jânio Quadros, dia 25 de agosto de 1961. Naquele tempo, não se votava em chapa para presidente e vice. Eram votos separados e o resultado da eleição de 1960 dera a vitória de Jânio apoiado pela UDN e PTN e o cargo de vice a Jango, pelo PTB. Isto é, o presidente era de um partido, o vice de oposição. Isso já era complicado, mas não era tudo. Jânio nunca teve grandes ligações com partidos políticos e quando se tornou presidente pouco ligou a seus apoiadores. Um deles era o governador do estado da Guanabara (hoje Rio de Janeiro) e jornalista Carlos Lacerda, que logo se transformou num crítico feroz do presidente. Só que não era a favor do vice. Não. Ao contrário, apesar de fazendeiro bem-sucedido, Jango era visto como um esquerdista, um político que poderia implantar o comunismo no Brasil, desequilibrando a América a favor dos soviéticos (que tinham acabado de conquistar Cuba) na Guerra Fria. Jânio renunciou no Dia do Soldado, enquanto Jango fazia uma visita oficial na Ásia, e a solução natural era que o vice assumisse. Porém, os ministros militares, que na época mandavam na política, eram contra. O presidente da Câmara Federal, Ranieri Mazzili, assumiu interinamente a presidência. A notícia da renúncia chegou a Porto Alegre na mesma manhã, numa cerimônia militar a que o governador Leonel Brizola assistia. Era uma sexta-feira fria e chuvosa. Depois da cerimônia, o governador procurou se informar direitinho sobre o que estava acontecendo, e a cada telefonema ficava mais tenso. Última Hora, jornal de Samuel Weiner e historicamente ligado ao trabalhismo, publicou uma edição extra de oito páginas ao final do dia 25, com uma capa que já apontava dificuldades em breve. Na metade direita da página, uma foto de Jango, na metade esquerda, debaixo do título “IMPOSIÇÃO DA LEGALIDADE”, está a reprodução do artigo da Constituição que garantiria a posse do vice. E no rodapé, como uma legenda em corpo enorme o texto: “Segundo se informa, o sr. João Goulart, novo Presidente da República, regressará amanhã ao País, procedente de Hong Kong, onde se achava em missão oficial, para assumir a Suprema Magistratura da Nação. A chegada do novo Presidente da República está prevista para as 13 horas”. Mais que uma notícia, era um desejo e uma forma de pressão, porque o que acontecia nos bastidores e abertamente em Brasília resultaria por atrasar essa chegada em uma semana. Os ministros militares, tendo à frente o general Odilo Denys, do Exército, eram contra a posse de Jango e colocaram os quartéis em prontidão. A edição de sábado refletia a tensão. Manchete: “Jango a UH: ‘Meu dever é assumir’ ”. Embaixo, sob os títulos ontem, hoje, amanhã, fotos de Jânio, Mazzili e Jango. Editorial do jornal: “Ao povo: pela ordem e pelo regime”. Manchete na página central: “Armas nas ruas pela paz de Porto Alegre”. Naquele sábado, o governador só saiu do Palácio para a abertura da Exposição agropecuária realizada no bairro Menino Deus (a precursora da Expointer). Atendeu telefonemas de jornalistas de outros estados, falou com aliados, conversou com Jango por telefone, implorando que viesse. Mas a situação se agravava. Às 3 horas da manhã de domingo, 27, direto dos porões do Palácio Piratini, na Assessoria de Imprensa, falou através das rádios Farroupilha e Gaúcha. Depois de citar a renúncia de Jânio como irreversível e defender a legalidade da posse de Jango, denunciou: “Entretanto, a politicagem, os sentimentos inferiores e golpistas de alguns círculos dessa República vêm entendendo que não se deve dar posse ao vice-presidente da República, ou melhor, que se deve impedir que o presidente constitucional do Brasil, que no momento é o sr. João Goulart, exerça suas funções”. Depois, assegurou não aceitar “quaisquer golpes, não assistiremos passivamente quaisquer atentados às liberdades públicas e à ordem constitucional”. Brizola ainda pediu que “cada um” tomasse medidas contra o golpe e encerrou: “Defendemos a ordem legal, defendemos a Constituição, defendemos a honra e dignidade do povo brasileiro”. Às 11h 38min da manhã de domingo as rádios Farroupilha e Gaúcha (que eram empresas diferentes) foram fechadas por ordem federal. Ao meio-dia, Brizola recebeu o comandante do III Exército, general Machado Lopes, que anunciou apoio à Legalidade. O governo gaúcho requisitou a rádio Guaíba, para fazer novo pronunciamento. Às 14h23 ele anunciou que a partir daquele momento aquela era a “emissora oficial” que iria transmitir os comunicados do governo. Vinte e cinco anos depois, em depoimento ao livro “Legalidade 25 anos”, da editora Redactor, ele recordou: “Falei de improviso e sob grande tensão, medindo, tanto quanto possível, as minhas palavras. Demonstramos, perante a população, o desatino em que estavam incorrendo as autoridades de Brasília”. “A partir deste momento, começou a funcionar a Rede da Legalidade, com a integração de uma quantidade crescente de pequenas emissoras às transmissões da rádio Guaíba. Centenas de jornalistas, nacionais e estrangeiros, sob a coordenação de Hamilton Chaves, desenvolveram um admirável trabalho que sensibilizou o povo brasileiro, civis e militares, por todos os quadrantes da Nação”.
Voz oficial Na segunda-feira, Lauro Hagemann apresentou-se para participar da Rede da Legalidade. Ele era o locutor do Repórter Esso, o noticiário de rádio mais bem conceituado. Tinha credibilidade. “Quando ouviram a voz do Repórter Esso na Rádio da Legalidade, as pessoas deram mais crédito”, acredita. Ele estava em casa, ouvindo a emissora, quando decidiu: “É uma avaliação subjetiva minha. Mas estava faltando profissionalismo. Os locutores liam os comunicados sem emoção. Eu achava que se continuasse assim a coisa ia degringolar. Estava muito lúdico”. Depois dele, vieram outros: Ênio Lantieri, Gonçalves Júnior e Petrôneo Cabral foram alguns que se destacaram. Antenor Modula, um dos pseudônimos de João Aveline no jornal, registrou na sua coluna “TV e rádio” de 30 de agosto: “São tantos locutores voluntários que a escala não dá mais de meia hora para cada um”. Lauro Hagemann considera que este foi um grande momento dos radialistas: “Foi uma atitude da categoria, que se engajou no movimento. Aquilo foi uma coisa nova por aqui. Em outros lugares já acontecia isso de rádio servir para mobilizar, mas aqui foi a primeira vez”. Na segunda-feira, 29, um grupo de bacharéis em jornalismo — Lauro Hagemann, Cipriano Ferreira Bernd, Iara Bendatti, Circe Mara Citro, Álvaro Val e Nestor Fedrizzi — anunciou apoio a Legalidade e declarou-se em “reunião permanente”. Paulo César Pereio e Iara de Lemos, integrantes do Comitê de Resistência Democrática dos Intelectuais, fizeram o Hino da Legalidade (ele, a letra, ela, a música). Peréio reuniu um grupo de 20 pessoas no estúdio da rádio Farroupilha e gravaram o hino, que tocava constantemente na Rede. A esta altura, o movimento no Palácio era intenso. O governador tinha requisitado alguns revólveres para armar correligionários em caso de um ataque anunciado pelo Exército Nacional. Montaram-se barricadas nas ruas, em torno do Palácio. No dia 29, em outro pronunciamento, Brizola anunciou: “O golpe não será dado pelo telefone”. O general Machado Lopes anunciou que não receberia mais ordens de Odilo Denys e 98 emissoras integravam a Rede da Legalidade. “O Congresso e o povo do Brasil inteiro têm que saber que, no Rio Grande, o povo, o governo e o III Exército estão lado a lado”. Em Porto Alegre, grupos de operários e estudantes faziam caminhadas pelas ruas, pelo Interior, organizavam-se comitês de resistência democrática. Enquanto isso, Jango deslocava-se em direção ao Brasil, em escalas: de Cingapura para Paris, de Paris para Nova York, dali para Buenos Aires e então para Montevidéu, onde chegou em 31 de agosto. Sempre trocando informações com Brizola e outros líderes políticos do País. No dia 30, os militares lançaram um manifesto contra a posse dele. Em Porto Alegre, os presidentes do Inter, Luiz Fagundes de Mello, e do Grêmio, Pedro da Silva Pereira, entregaram no Palácio Piratini documento manifestando “solidariedade ao governador pela posição assumida em defesa dos princípios democráticos de nossa Carta Magna”. Antenor Modula reclamava que está com pouco serviço (costumava criticar a programação das rádios e até comerciais): “A Rede de Radiodifusão da Legalidade continua no ar, funcionando com o que há de melhor em matéria de locução. Muito dobrado, muita palavra, especialmente, de ordem”. No dia 1º de setembro, Ultima Hora mostrava que a paciência com Jango estava se esgotando: “O Brasil está a sua espera, presidente”, era a manchete de capa de um editorial que exigia que o presidente retornasse logo: “Volte e caminhe tranqüilo, presidente. Caminha tranqüilo para o posto que o povo lhe conferiu”. Ele estava em Montevidéu, tinha declarado “A Legalidade sou eu”, mas queria assegurar-se de que sua chegada ao Brasil não geraria conflitos. À noite, saiu um Caravalle de Montevidéu, com Jango, líderes políticos e 300 jornalistas em direção a Porto Alegre. Assim que está no ar, o avião apaga todas as luzes e voa baixo para não ser interceptado pela FAB. Às 21h, Lauro Hagemann, pela Rádio da Legalidade anunciou: “Nesse momento, um carro conduzindo o presidente João Goulart percorre as ruas da cidade”.
O carro chegou 20 minutos depois. Setenta mil pessoas, assegura a Última Hora, estavam na praça. Queriam ouvir Jango, mas ele apenas acenou para a multidão. A Rádio da Legalidade ampliava-se: passa a transmitir também em espanhol, francês e inglês. Jango não falou também no domingo e a manchete da página central da edição de segunda, dia 4, registrava: “Povo não concordou com o silêncio do presidente”. A manchete de capa, “Legalidade foi traída”, manifestava a opinião do jornal sobre a emenda que instalava o parlamentarismo no País. Solução que os militares aceitaram para permitir a posse de Jango. Ainda houve uma tentativa de se votar o impeachment de Goulart, mas a proposta teve 12 votos a favor e 300 contra. No dia 5, Jango decidiu embarcar rumo a Brasília. Foi chamado de vôo-suicida, porque havia ameaça de oficiais da Aeronáutica atacarem o avião quando tentasse pousar na capital. Mas não houve o atentado. Este foi também o último dia da Rede da Legalidade. Depois que Jango viajou, a mobilização foi diminuindo, as pessoas voltando para suas casas. Leonel Brizola falou à noite, elogiou a participação do povo gaúcho, falou na defesa das liberdades democráticas e do trabalho de locutores, redatores e rádio-repórteres que trabalharam na Rede da Legalidade. “O encerramento foi lacônico. Não houve muita conversa”, registrou Antenor Modula, na coluna do dia 6. A Rede da Legalidade encerrou as atividades à meia-noite.
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